João Andrade: "Eu não espero muita coisa de diferente no mundo pós-pandemia"

21/01/2021

Por: CEFAS CARVALHO
 
Poeta e artista plástico, João Andrade é atualmente um dos maiores artistas potiguares, com diversas premiações em todos os concursos regionais e participação em antologias e coletâneas. É formado em Letras e Filosofia e pós-graduado em linguística e mestre do ensino. Lançou livros como “Por Sobre as Cabeças”, “Cantigas de Mal dizer” e “Livro de Palavra”. Em entrevista ao PN< falou sobre suas particularidades durante a pandemia e isolamento. Confira:
 
 
Você conseguiu produzir literatura durante o confinamento? Se sim, como foi esse processo?
 
Sim; e não só literatura, pintei bastante. Na literatura, dei sequência a dois projetos: um livro de contos e outro de poemas.
 
Eu não sou um ser muito social, gosto de solidão, de isolamento, de modo que o confinamento não foi nenhum tormento. Quero esclarecer que não me refiro à solidão do abandono, do desprezo. É o que chamo de solidão assistida e a semântica chama de solitude. Gosto de ficar sozinho em meu ateliê, em meio aos meus livros, meus quadros; porém com as pessoas amadas, ao alcance de um sorriso, de um abraço. Esses momentos foram e são essenciais para o processo de reflexão e de autoconhecimento ocorrer de forma mais consistente; por consequência, para que eu possa me atirar nos abismos que trago dentro de mim e registrar, em meus quadros e em meus escritos, o transcurso da queda.
 
 
Você lançou um livro novo em plena pandemia. Como foi essa experiência?
 
Não lancei. Na verdade, publiquei. O lançamento seria na semana de uma exposição minha, na Capitania das Artes, com os poetas e artistas plásticos Aluísio Azevedo Júnior e Alfredo Neves, denominada Geração e Degeneração da Arte – contra o bom, o belo e o verdadeiro. Essa exposição seria uma resposta ao movimento artístico de caráter fascista denominado Canarinho, no entanto, no dia do vernissage, por “coincidência”, dia da poesia, tudo foi suspenso, por causa do agravamento da pandemia.
 
Voltando ao livro, eu tenho pavor a lançamento de livro, meu, obviamente, de modo que me preparei para a felicidade desse não lançar; no entanto, essa felicidade não veio. Percebi que preciso desse tormento, preciso da interação com o público leitor; preciso ser amado e odiado pelo que produzo de arte e necessito da emoção do contato. 
Eu amo e odeio o momento de autografar um livro. Sinto um amalgama de pânico e vaidade. Não consigo dormir bem depois, no entanto descobrir que tenho pesadelos ainda piores quando o evento de lançamento não ocorre.
 
 
Você também é artista plástico, tendo feito diversas exposições. Como acha que serão as exposições de artes visuais no chamado pós-pandemia?
 
Eu não espero muita coisa de diferente no mundo pós-pandemia. A História é um rosário sombrio de guerras, chacinas e tragédias, quando essas catástrofes não são naturais, nós nos encarregamos em fazê-las. Assim, o mundo pós-pandemia, o chamado novo normal, não terá nada de novo. As exposições de artes visuais continuarão elitistas e restritas. 
 
 
Como avalia a situação dos escritores e artistas visuais durante a pandemia?
 
A situação dos artistas, no Brasil, seja qual for a modalidade, em sua maioria é de calamidade. É praticamente impossível se viver unicamente de arte. Com a pandemia, essa situação virou mendicância. Foi bonito toda mobilização e solidariedade entre os artistas e parte do público para que a arte continuasse sendo produzida e consumida, porém, apesar da beleza e da solidariedade, foi muito triste ver todas as manifestações artísticas sem poder gerar recursos e com isso colocar o artista em uma situação ainda pior da que estava antes da pandemia.
 
O escritor e o artista visual não são exceção a essa regra. Sem exposição, o trabalho não é visto, sem ser visto não é adquirido, por consequência o artista visual não vende.
Já o escritor, mesmo antes da pandemia, quase sempre tem que financiar o próprio livro, depois doar para bibliotecas de escolas ou para alguém que supostamente o leia, faça um comentário, publique uma resenha, coisas assim. Se é convidado para um evento, vai sem nenhum cachê custeando o transporte e a hospedagem. Era assim, não parece que mudou nem que vai mudar. 
 
 
Quais seus projetos culturais para 2021?
 
Em literatura, pretendo lançar o livro publicado no ano passado, Estilhaços e os dois feitos durante a pandemia: um de contos intitulado Seres gosmentos (título provisório) e um de poesia intitulado Versos perversos. Além disso, pretendo terminar um livro de poesia com o título de Cantigas de escárnio. 
Na pintura, pretendo realizar uma exposição intitulada O mal que habita em mim. 
 
O período de confinamento me favoreceu uma análise maior sobre João Andrade, de modo que entendi melhor a consciência que mora em meu corpo. Dessa forma, o que descobri e aprendi aparece diretamente no que escrevo e pinto. "O mal que habita em mim" é uma série de quadros pintada como resultado do processo de autoconhecimento. Cada quadro é a expressão imagética de uma deformação de minha alma. É a minha forma poética e colorida de me exorcizar.