Artista potiguar durante a pandemia e o isolamento: Carla Nogueira

01/09/2020

Por: CEFAS CARVALHO
Empreendedora de Economia Criativa e conhecida por coordenar o projeto Mostra Frida Kahlo, Carla Nogueira também ajuda a coordenadar projetos de relevância como o Insurgências Poéticas e conversou com o Portal PN sobre a produção cultural e a economia criativa nestes tempos, opinando sobre lives, alternativas e pós-pandemia. Confira;
 
 
Devido à pandemia, pela primeira vez você fez de forma virtual a Mostra Frida Kahlo do RN. Como foi esse processo e essa experiência?
 
 A princípio tive uma resistência em fazer a Mostra neste formato por ser um formato ainda desconhecido e não usual nas nossa forma de venda. Sempre fui do contato, do abraço ao cliente e também dos artistas, e acho que a venda presencial sempre foi a melhor forma de contar a história de cada artista, é assim que eu trabalho, vendendo o coração por trás de cada marca, apresentando quem faz e porque faz. 
 
Este medo acabou depois que juntei os artistas e todos concordaram e me dar apoio em toda a execução da feira,  e assim abrimos curadoria e foram 21 dias de trabalho incessante, 27 marcas vendendo, incluindo uma marca de Minas gerais e uma de João Pessoa, visibilidade em todos os portais de notícias de notícias da cidade e com vendas efetuadas para Brasília, rio, Braga em Portugal e muitas outras cidades. Um sucesso absoluto em meio ao caos, provando que a força do coletivo veio pra ficar se ela for coordenada com compromisso, coragem e muito trabalho.
 
Lembrando que todos estes dias eu estava sozinha, contando com o auxilio virtual de alguns amigos que  me ajudavam nos bastidores.
Eram quase 150 atendimentos por dia, todos virtuais. Loucura concluída com sucesso! Todo este trabalho feito com maior cuidado pensando em proteger os clientes e os artistas, já que muitos são do grupo de risco e eu que também sou.
 
 
Neste período como está o funcionamento do Estúdio Carlota?  
 
O Estúdio Carlota voltou a funcionar dia 19 de agosto com tudo novo. aproveitamos esse momento de pandemia para reformular o propósito do coletivo e também para renegociar dívidas com marcas antigas e abrir espaço para novas marcas que ainda não tinham tido a oportunidade de estar dentro do estúdio. neste momento estamos trabalhando com uma forma diferenciada de apresentação das marcas. escolheremos todos os meses um artista para ser referência e ser apresentado na cidade e também em todo Brasil já que o nosso estúdio conseguiu um alcance orgânico diante das pessoas que nos seguem. hoje somos quase 8.500 seguidores orgânicos e engajados apenas pelo diferencial dos produtos e pela originalidade e criatividade das marcas.
 
Estamos abrindo de quarta a sexta e também aos sábados diminuímos o horário de atendimento para nossa proteção e também para proteção dos nossos clientes e artistas todo atendimento é agendado virtualmente ou por WhatsApp e o cliente pode vir na loja sossegado, onde a loja vai estar toda higienizada esperando para que eles possam fazer as suas compras tranquilamente.
 
 
Como observa a situação dos artistas que dependiam do contato direto com o público para sobreviver?  
 
Foi pensando justamente na situação desses artistas que dependem do público diretamente para sobreviver que resolvemos fazer esse novo conceito de venda dentro do estúdio. muitos dos nossos artistas, quase 90% deles só vendiam em feiras de arte da cidade, como elas não estão acontecendo todos eles estavam com seus estoques parados com sua criatividade guardada e com seu tempo de criação limitado, ficou provado que ficar em casa não significa dizer que você se sinta mais criativo, uma vez que para o artista é importante estar na rua para que a sua criatividade e inspiração aflore.
 
Então neste momento estamos mostrando ao nosso público quem são estas pessoas. muitas vezes elas eram invisibilizadas nas ruas, as pessoas só conhecem as obras não conhecem os artistas e agora mais do que nunca o estúdio Carlota virou um espaço de apresentação destas pessoas é importante que a cidade conheça Quem produz, isso também faz aumentar muito o valor aos produtos e as marcas, uma vez que você consegue agregar, trazer empatia entre artista, produto e público.
 
 
Como a economia criativa está se movimentando em geral neste tempo de isolamento?
 
participo de um grupo de coletivos do Brasil inteiro todos nesse momento estão tentando trabalhar desta mesma forma apresentando quem está por trás da história de cada projeto, de cada loja, de cada arte. é importante reverter qualquer venda que seja independente do valor dela. as feiras virtuais são o presente, talvez a gente passa muito tempo trabalhando desta forma, eu particularmente não gosto porque gosto do contato com as pessoas, mas infelizmente vamos ter que nos readaptar e viver nesta realidade para que o ciclo não pare. é importante que as pessoas entendam cada vez mais que a compra do pequeno é que faz boa parte da economia não Parar. é importante dá valor aos pequenos negócios uma vez que eles estão bastante prejudicados já que as linhas de crédito do governo não funcionam e a maioria delas precisam de milhões de documentos burocráticos que a maioria dos artistas não tem, como fiadores, nomes nome limpo e isso muitas vezes acontece para quem é um pequeno artesão e  sem capital de giro, ele, que precisa vender para colocar comida na sua mesa é fatal! hoje uma das coisas mais importantes para que essa economia continue sendo movimentada e a educação das pessoas, é fazer com que este público acredite que o propósito de um artista de rua hoje ou qualquer que seja ele, seja levar dignidade para suas vidas. O propósito  hoje deixou de ser aquele sonho intangível que os Coachings tantos tanto falam, o propósito hoje de qualquer pessoa que trabalha com economia criativa é ter as três refeições na mesa e isso a gente tem que pensar que acontece com todos que trabalham com as vendas informais seja ele um vendedor de picolé caseiro seja ele um artista renomado com suas obras pintadas nas telas.
 
 
Quais os seus próximos projetos?  
 
Os próximos projetos do estúdio será uma feira de escritores e poetas e editoras independentes que eu estou pensando junto com os meus amigos do insurgências poéticas. 
 
Trazer a feira na calçada também para o virtual. a feira na calçada é um produto do Estúdio Carlota que acontecia nas calçadas da nossa loja aos finais de tarde de todas as primeiras sextas-feiras do mês, com a Pandemia ela parou e também estamos planejando para que vire virtual.
 
Estou escrevendo um projeto de levar a nossa arte e a arte dos artistas de outros estados para outros espaços fora do estúdio e fazer intercâmbio de arte assim que for possível.
 
E também estou projetando o nosso grande sonho que é o planejamento da saída do estúdio para  uma casa.  a Casa Carlota vai acontecer.…
 
 
Como acha que será o consumo cultural no pós-pandemia?
 
O consumo cultural vem acontecendo só que de forma diferente, as pessoas hoje estão procurando consumir de quem tem propósito, quem tem compromisso e de quem também não parou durante a pandemia, é um lugar bastante confuso ainda porque ninguém sabe que por trás das criações e por trás da vontade de não parar existe também o medo e a falta de perspectiva, isso abala a criatividade. existe também o outro lado que não corresponde, hoje a gente trabalha e ver algumas coisas acontecendo com contribuição voluntária e nem sempre elas acontecem ou seja você quer que o artista continue produzindo, mas você não paga para que ele produza e muitos deles precisam desse dinheiro desse pequeno cachê para sobreviver, é muito complicado, então é trabalhar 24 horas pensando como inovar nisso e como tocar o coração das pessoas para que elas se sintam à vontade para fazer esse tipo de troca. Pagar pelo seu artista que está criando em casa. É educação diária, tipo uma catequese, você tem que informar essa importância a todo tempo, desgasta, mas é a única saída.
 
Por aqui eu continuo tentando não perder a coragem e estimulando quem está ao meu lado para que continue, é importante para nossa saúde mental continuarmos trabalhando inovar dentro das nossas possibilidades. vai dar certo! tem dado certo!