Em Moçambique / África, perspectivas de Qualidade na Educação pós pandemia

28/07/2020

Por: Andrezza Tavares (IFRN) & Bento Silva (Universidade do Minho)
Foto: Lina Salomão (Universidade Eduardo Mondlane em Maputo)

Covid-19 e Perspectivas de Melhoria na Qualidade de Ensino em Moçambique

Entrevista internacional com Lina Salomão, docente universitária (assistente)  na Universidade Eduardo Mondlane em Maputo, e estudante de doutoramento em Antropologia na Universidade de MOI-Kenya (sob patrocínio do AMAS PROJECT - Africa Academic Mobility Scheme) e de doutoramento em Educação na Universidade Eduardo Mondlane, SubPrograma de “Gender Mainstreaming”, em parceria com Universidade de Uppsala da Suécia, com projeto de doutoramento intitulado “Gender Relations and School Dropout in Mozambique: Trajectories of Girls in Niassa Province”. Neste entrevista fala sobre as medidas e estratégias educativas tomadas durante a pandemia em Moçambique e como estas experiências actuais podem servir de reflexão de ações futuras para a melhoria da qualidade de ensino em Moçambique e suas implicações no desenvolvimento.

1. Quando se deu o momento formal do início do isolamento social em Moçambique?  

Com a pandemia do COVID-19, que assola vários países do mundo inteiro, o presidente da Republica de Moçambique anunciou no dia 20 de Marco de 2020 uma directiva na qual orienta o encerramento das escolas públicas e provadas do nível pré-escolar ao nível superior, estimando-se 14.970 escolas, afectando 8,5 milhões de estudantes com impactos psicólogos, sociais e económicos, não mensuráveis.

2. Sobre as metodologias de ensino, quais as estratégias adotadas pela educação básica e pelas instituições de ensino superior por meio da educação remota?

Para o ensino primário e secundário, tanto público como privado, várias estratégias foram adoptadas, desde o levantamento de fichas na escola previamente preparadas pelo corpo docente, de acordo com os conteúdos programáticos e dosificados para resolução em casa e posterior retorno à escola para feedback, bem como vídeos de aulas. As instituições do ensino superior, como é o caso da Universidade Eduardo Mondlane (UEM) já com programas de ensino a distância a decorrer em alguns cursos, há vários anos, nos quais leciono o módulo de Psicopedagogia, recorrem ao uso de plataformas tecnológicas para a continuidade do processo de ensino e aprendizagem. Tal é o caso de espaços Moodle, Whatsapp, Skype, Google Aulas, Colibri e Biblioteca. Contudo, as produções científicas que revelam o impacto/avaliação do ensino a distância nos pais são escassas.

3. Como aconteceu a adoção de plataformas enquanto recursos para a educação remota?

O recurso às plataformas tecnológicas vem a ser uma situação nova tanto para o aluno, tanto como o professor, criando-se um espaço de dúvidas e incertezas quanto ao futuro, onde a falta de material didático e outras condições são substituídas pela falta de dispositivos eletrónicos, criando também a confusão entre Ensino a Distância e uso de plataformas digitais para o processo de ensino e aprendizagem.

4. Quais as condições objetivas para o funcionamento das escolas de educação básica presencial em Moçambique?

Enquanto se debate, neste momento, o retorno às aulas, a maioria das escolas carece de condições mínimas de saneamento básico, higiene e sanitização e questões para garantia do cumprimento de medidas de prevenção, como o uso de máscara, manutenção de distância social e lavagem constante das mãos.

5. Que reflexões o atual contexto pandêmico pode suscitar com relação à qualidade de ensino em Moçambique?

Ficar em casa, numa altura em que os casos de contaminação de COVID-19 tendem a aumentar na sua maioria por transmissão local em todo país, para mim, como docente de Psicopedagogia em regime presencial e a distância nos cursos de licenciatura em educação ambiental e organização e gestão da educação, e também como doutoranda de Antropologia e Educação, os momentos de reflexão giram em torno de todo processo educativo em Moçambique.

Se quisermos entender o processo educativo como a educação, a instrução e o ensino de uma nação e sobretudo o seu impacto no sujeito no processo de ensino de aprendizagem, não basta apenas refletir sobre como este processo tem sido feito ou gerido durante a pandemia Covid-19. Interessa-me refletir, também, sobre os antecedentes e como estas experiências actuais possam servir de reflexão de ações futuras para a melhoria da qualidade de ensino em Moçambique e suas implicações no desenvolvimento.

6. Então, antes da pandemia, que aspectos a pesquisadora Lina Salomão percebia como desafios centrais do sistema educativo em moçambique?

Antes da pandemia do Covid-19, o sistema educativo moçambicano apontava os seguintes desafios:

·       Apenas 17% da população tem o português como língua materna, sendo a língua oficial e de instrução de cobertura nacional (INE, 2017);

·       O Ensino Secundário é lecionado de forma presencial, mas também a distância, entretanto, conforme reconhece o Plano Estratégico da Educação 2020, o desafio é a visibilidade da modalidade de Ensino a Distância dando como exemplo que em 2017 apenas cerca de 34 mil alunos (3% do total de alunos no Ensino Secundário) frequentavam o Ensino a Distância;

·       A ineficiência interna das escolas que afecta a qualidade de ensino e aumenta os custos para as famílias e sociedade, e não permite reduzir, de forma significativa, o rácio alunos/professor, que era de 64,2 em 2018, no Ensino Primário do Primeiro Grau (EP1);

·       O absenteísmo de professores e alunos, identificado no Plano Estratégico para e Educação (PEE 2012-2016-2019) como um dos grandes obstáculos para a aprendizagem dos alunos, um pouco por todo pais mas de forma mais acentuada no norte do pais, com alegacões à ausência dos professores para pequenas deslocações, factores culturais, movimentação da população durante o ano, falta de controlo interno e supervisão, entre outros.

·       Os grandes desafios consistem em melhorar a aprendizagem dos alunos através da redução do rácio alunos por professor, melhorar a formação inicial e contínua de professores, construir mais salas de aulas e aumentar a provisão de livro escolar e material didático.

7. Durante a pandemia, que aspectos percebe como desafios centrais do sistema educativo em moçambique?

No contexto do sistema nacional de ensino as plataformas digitais estão sendo usadas para o processo de ensino e aprendizagem, tal é o caso do programa da Televisão de Moçambique (TVM) intitulado Tele Escola, e Rádio. No entanto não existem garantias de que a telescola seja de mais-valia para os alunos, uma vez que parece não haver uma identidade que controla e avalia o processo de aprendizagem. Temos o Professor que ensina, transmite ou medeia os conteúdos com todos métodos eficazes, no entanto não temos como assegurar o domínio e consolidação da matéria data, como reconheceu a porta-voz do Ministro de Educação e Desenvolvimento Humano em entrevista, referindo que o uso das plataformas tem sido um sucesso, mas reconheceu que “não se sabe se os alunos estão ou não a acompanhar as aulas” reconhecendo também o desafio de se apurar se de facto os alunos têm estado a resolver os trabalhos e quantos estariam a estudar.

Esta é de facto uma questão pertinente na medida em que o Ministério da Educação não pode garantir que os alunos estejam de facto aprendendo através dos conteúdos transmitidos pela Tele Escola (TV), Radio, Whatsapp e outras Plataformas e, de igual modo, assegurar a assiduidade e efetividade nos programas diários, para além de que esta é apenas uma alternativa para manter os alunos em actividade escolar enquanto se controla a propagação e mitigação do Covid-19 nos pais. Se olharmos as diferentes propostas entre o ensino público e privado, ambiente urbano versus rural, condições financeiras e materiais, tanto dos alunos assim como dos professores, tais como disponibilidade de energia elétrica, acesso a internet/wifi, posse de smartphone, televisão e rádio, as assimetrias entre regiões e desigualdades sociais são muito acentuadas.

8. Quais os constrangimentos ou problemáticas mais pertinentes para destacar considerando o impacto das aulas fora do espaço escolar com recurso das plataformas digitais?

O principal constrangimento das aulas fora do espaço escolar com recurso as plataformas digitais reside no acesso e posse dos dispositivos eletrónicos pelos docentes e população estudantil e na localização geográfica: zona rural versus urbana (acesso a internet, wifi, posse de smartphone), efectividade dos programas para essas plataformas, e ausência de efetivo feedback: estarão os alunos frequentando e aprendendo os conteúdos transmitidos? Uma vez transmitidos os conteúdos na rádio, televisão, enviados os conteúdos, quem tem acesso? Como é garantido o domínio e consolidação da matéria dada? As funções didáticas de mediação, assimilação, domínio e consolidação dos conteúdos, e a avaliação das aprendizagens, estão sendo asseguradas e como?

8. Temos conhecimento que Ministério de Educação de Moçambique tem promovido a Educação a Distância, destinada, sobretudo, para o Ensino Secundário, em que consiste esse programa?

Já antes da pandemia do Covid-19, para atender cidadãos não cobertos pelo sistema de ensino na modalidade presencial, foi promovido pelo Ministério de Educação de Moçambique e implementado pelo Instituto de  Educação Aberta e à Distância – IEDA, o Programa de Ensino Secundário Geral à Distância (PESD).

Importa esclarecer que o Instituto de Educação Aberta e à Distancia foi criado como uma instituição com a responsabilidade de organizar e promover programas de formação de professores e atender cidadãos não cobertos pelo sistema de ensino na modalidade presencial. Por sua vez, o Programa de ensino Secundário Geral à Distância tem como objetivo proporcionar, aos graduados da 7ª e aos que queiram   frequentar a 8ª, 9ª e 10ª Classes, oportunidades de escolha de modalidade de ensino para continuação dos seus estudos, promovendo assim o alargamento de acesso ao Ensino Secundário Geral e reduzindo as disparidades regionais de género em termos de acesso às oportunidades educativas do ensino secundário geral.

9. Existe alguma avaliação sobre esse programa de educação a distância? Em caso positivo, aspectos daesta avaliação podem ser relevados?

O alcance ao acesso universal e equitativo à educação básica de criança, jovens e adultos, assim como a progressiva expansão do acesso ao ensino secundário geral, técnico profissional e superior, conforme constatou a Estratégia de Ensino à Distância 2014-2018, constituía um grande desafio devido ao aumento da população escolar nos diferentes níveis. Contudo, pelo facto desta modalidade de ensino a distância não ter sido suficientemente divulgada, quer para os potenciais beneficiários quer para os gestores dos vários níveis de planificação e provisão de meios para a educação, e o público em geral, assistimos a muito ceptismo e desconhecimento da existência deste Programa via EaD. Isso mesmo foi relevado na análise SWOT do Ensino a Distância, a análise das suas forças, oportunidades, fraquezas e ameaças, revelaram como fraqueza a fraca implantação de infraestruturas requeridas, carência de recursos humanos formados na área de EAD, fraca divulgação da estratégia de ensino a distância e, como ameaças, o fraco conhecimento das potencialidades da modalidade.

 

10. Como professora e pesquisadora preocupada com a melhoria da qualidade de ensino em Moçambique, quais seriam os aspectos a priorizar na realização de alguma pesquisa para aferir os impactos das medidas tomadas durante a pandemia na Educação em Moçambique?

A modernidade acontece com o uso da tecnologia e a pandemia do Covid-19 veio mostrar a necessidade da evolução tecnológica para o processo de ensino e aprendizagem. A questão é: estarão os sujeitos do ensino e aprendizagem preparados psicologicamente e tecnicamente para esta nova era? Estarão os professores preparados para um novo aprendizado de metodologias que não envolvem o contacto na sala de aulas?

O Movimento de Educação para Todos (MEPT) e a Faculdade de Educação da Universidade Eduardo Mondlane estão levando a cabo um Inquérito sobre o impacto das medidas de mitigação da Covid-19 na Educação Básica em Moçambique, dirigido aos alunos do ensino básico (1ª a 9ª Classe), professores, pais e encarregados da Educação ao nível nacional, onde a central questão é de apurar que dispositivos eletrónicos estariam usando os alunos em todo pais para acompanhar as aulas e o que poderia ser feito para melhorar o ensino e aprendizagem neste tempo de pandemia da COVID-19 e em preparação para o retorno as aulas presenciais.

Contudo, entendemos que pesquisas em torno da matéria não só devem se basear sobre como os alunos e encarregados de educação têm acesso aos conteúdos programáticos, ou sobre as condições em que os professores ministram as aulas, mas devem ter como ponto de partida as perceções sobre as perspetivas de mudança de atitude face a nova modalidade de ensino dadas as dificuldades económicas que o país enfrenta. Que conhecimento, do ponto de vista antropológico, psicológico e sociológico, pode ser produzido em torno dos impactos motivados pela COVID-19?

Esperemos que as pesquisas em curso venham a dar respostas sólidas a estas questões tendo em vista a melhoria da qualidade do sistema escolar em Moçambique.

 

Nota: Esta entrevista publicada no Portal de Jornalismo Potiguar Notícias integra o repertório de publicações do Projeto pluri-institucional intitulado “Diálogos sobre Capital Cultural e Práxis do Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN) - IV EDIÇÃO”. O Projeto, vinculado à Diretoria de Extensão (DIREX) do campus IFRN Natal Central e ao Programa de Pós-Graduação Acadêmica em Educação Profissional PPGEP do IFRN, articula práxis do campo epistêmico da Educação a partir de atividades de ensino, pesquisa, extensão, inovação e internacionalização com o campo da comunicação social a partir da dinâmica de produções jornalísticas por meio de diversos canais de diálogo social como: portal de jornal eletrônico, TV web, TV aberta, rádio e redes sociais. O objetivo do referido Projeto de Extensão do IFRN é socializar ideias e práxis colaboradoras da educação de qualidade social, de desenvolvimento humano e social por meio da veiculação de notícias em dispositivos de amplo alcance e difusão de comunicação social. Para mais informações sobre o Projeto contacte a coordenadora: andrezza.tavares@ifrn.edu.br.  

 

Fonte: Lina Salomão (Universidade Eduardo Mondlane em Maputo)