A calçada do cinema

26/07/2020

Por: Walter Medeiros
 
 
As capas das revistas sempre foram algo fascinante em minha vida, desde que comecei a tomar gosto pelo manuseio e leitura daquele tipo de impresso. Nos anos sessenta do século passado, o Brasil vivia, ainda, a Era do Rádio. Pouca gente possuía e assistia televisão, que mostrava um mundo preto e branco, com recepção precária e limitada em número de canais e programação. O acesso às notícias era predominantemente através de rádio e jornal. As revistas ocupavam, então, um espaço maravilhoso, com histórias em quadrinhos, aventuras, ilustrações e imagens coloridas que encantavam os olhos dos leitores.
 
Meu gosto pelas revistas era tal, que, durante uns cinco anos frequentei, diariamente, a calçada do Cinema São Luiz, onde se estabeleceu um ambiente de venda, compra e troca de revistas, que proporcionava o acesso àquela leitura de forma completa, variada e mais em conta. Assim, todos tinham oportunidade de levar para casa e ler todos os títulos disponíveis à época, principalmente das editoras Rio Gráfica, Ebal (Editora Brasil Améria Ltda.) e Abril (Disney). Aproveitava também para levar pastilhas, drops de cevada, bala de mel e o inesquecível confeito Dea.
 
Toda tarde, enquanto chegavam os clientes do cinema para a sessão vespertina do fllme de cada dia, muitos rapazes de várias idades chegavam, com variadas quantidades de revistas, em busca das novidades. Cada um passava, uma a uma, uma vista nas capas das revistas, sempre com belas imagens de desenhos ou fotografias, coloridas, da época ou antigas, mostrando o mundo do cinema, da música, do teatro ou dos quadrinhos. O destaque era para histórias de bang-bang, infantis e de ficção científica.
 
Daquele movimento surgiam informações e discussões sobre o mundo dos quadrinhos e outros, muitas vezes relacionadas com as “películas” em evidência, como El Cid, Bem Hur, Sansão e Dalila, A queda do Império Romano,  Ringo, Django, No tempo da diligências, Bufalo Bill, Tarzan, Zorro, e filmes de guerra ou terror, que movimentavam aquela inesquecível sala de exibições, que deu lugar ao atual Banco do Brasil do Alecrim. Já tinha, em frente, a cigarreira do Gordo, onde se comprava O Poti e a Tribuna, além das revistas de cada semana, e lanchonetes, com as guloseimas da época, saboreadas juntamente com suco de mangaba, Grapette ou laranjada Crush.  
 
Essas lembranças trazem à mente um filminho, com a minha saída de casa, na rua Campo Santo, depois Rafael Fernandes, levando um bolo de um palmo de altura, com revistas variadas, para mostrar, vender, trocar e comprar outras. Seguia a pé pela calçada da barbearia de Seu Cabôco, da Policlinica, onde muitas vezes encontrava Caju, antigo funconário do hospital, passava pela Amaro Barreto e dobrava na avenida 2. E a volta, cheio de novidades, para alimentar as ideias e mergulhar nas atrações, entre elas aquele curso de Rádio, TV, Transístores e Eletrônica, do Instituto Universal Brasileiro, que aquiri, cursei e montei um rádio transistorizado, recebendo um belo diploma com meu nome escrito por um calígrafo. 
 
A carga de informações que temos hoje ao alcance da mão, pelo celular, notebook, tablet ou PC, é bilhões ou trilhões de vezes maior do que aquela que tínhamos, porém procurávamos usufruir ao máximo todos aqueles traços gráficos, resultado de muito trabalho. Éramos ávidos pelas novas aventuras de Tarzan, Zorro, Cavaleiro Negro, Flecha Ligeira (Muitas vezes desenhada pelo nosso conterrâneo Evaldo Oliveira), Fantasma, Mandrake, Antar, Rocky Lane, Cisco Kid, Reis do Faroeste, Tio Patinhas, Pato Donald, Mickey, Roy Roger’s, Homem Aranha, The Jetsons, Os Flintstones, Batman, Super-Homem, Capitão Marvel,  Jerônimo – O herói do sertão, Bolinha, Luluzinha, Popeye e Recruta Zero.
 
Todas essas lembranças trazem uma saudade daqueles amigos, revisteiros, confeiteiros e cinéfilos, pela convivência tão harmônica e saudável. Muitos deles devem ter, ainda, guardados, exemplares daquelas preciosidades que mantínhamos com muito carinho, sem querer amassar, sujar nem rasgar, principalmente aquelas que eram de capas impresas em papel couché, as quais chamávamos de capas-lisas. Nos meus alfarrábios guardo algumas, que vez por outra me fazem voltar um pouco no tempo, ou fazem com que aquele passado chegue até os dias atuais. Sem esquecer os buchichos que faziam sobre as moças da bilheteria.