Apontamentos sobre ´Enfim, imperatriz`, de Maria Fernanda Elias Maglio

12/07/2020

Por: CEFAS CARVALHO
 
 
Antes de mais nada, é necessário dizer que este livro é um primor, um colosso em forma e conteúdo. Não à toa ou por acaso venceu o Prêmio Jabuti 2018 de melhor livro de contos. Aliás, contos da mais alta qualidade, e para além disso, que provocam, instigam, causam empatia e/ou repulsa, enfim, tiram o leitor de qualquer zona de conforto.
 
São 17 contos que transitam entre estilos e formas narrativas diferentes, mas que têm em comum o lirismo e o convite à inquietação/reflexão. Tanto já foi escrito sobre este livro que não há como acabar sendo repetitivo em algumas análises, embora, lembrando mais uma vez que este apontamento não se pretende acadêmico nem longo, apenas um registro público da leitura e do prazer que me proporcionou.
 
Nos contos, saltam aos olhos a quantidade de personagens ´marginais` (à margem da sociedade, que se diga), outsiders. Maria Fernanda escolheu abordar o universo daquelas pessoas invisibilizadas pelo ´sistema` e o faz com lirismo e uma indignação discreta que antes de comprometer o texto, o realça e reforça. É assim nos contos que tratam de assédio/estupro como "Viva em Maputo", "Cartas à irmã" e "Geni" (sim, referência explícita e homenagem à canção de Chico).
 
Dentro da investigação de pessoas invisibilizadas, há uma forte abordagem social, nos contos "Ventre alheio", "Tempo de coração rebentado" e "A filha de Teresa". Um dos contos, dos mais líricos, trata de identidade de gênero: "Botões coloridos e soldadinhos de chumbo", onde um garoto de 8 anos muito ligado à mãe não entende a raiva que o pai tem dele.
 
O meu conto preferido, de uma poesia fascinante é logo o primeiro, "Dezembro de deserção", que fala de amor e partida justamente pelo prisma de pessoas à margem da sociedade convencional. O começo do conto - e do livro, claro - já dá o tom do que virá: "Eu soube que ela ia embora na hora em que ferveu a água do chá".
 
Por fim, temos também o realismo mágico, entre a distopia e ecos de Gláuber Rocha (todo o livro gravita entre o rural e a globalização), em "Flor azul", "Olhos executados" e o terrível "Terra alagada de sangue", este uma dos textos mais tensos e cruéis - e isso é um elogio - que li nos últimos anos.
Quanto ao conto-título, é um monumento (ou um biscoito raro, como diria Fernando Sabino), não cabe em definições, rótulos, caixas, academicismos, precipitações. Leia. Apenas leia!...