O artista potiguar durante o confinamento: Márcio Benjamin

05/07/2020

Por: CEFAS CARVALHO
Foto: Eliézer Neto
 
Márcio Benjamin é advogado e um dos mais bem sucedidos escritores potiguares. Tem diversos livros lançados, nos gêneros conto e romance, como "Maldito Sertão", "Fome" e "Agouro". É militante cultural, participando de projetos que levam leitura a estudantes e vem divulgando a literatura de terror e suspense produzida no Brasil, principalmente no Nordeste. Durante este período de isolamento social vem roteirizando a websérie potiguar "As primas", que vem fazendo sucesso. Sobre isso tudo e como é fazer cultura em plena pandemia, o Portal PN conversou com o escritor. Confira:
 
 
Você está conseguindo produzir literatura durante este período de isolamento?
 
Sim, me considero um privilegiado porque estou sim. Estava com alguns trabalhos encomendados e surgiram algumas propostas. Me ancorei nelas até de forma meio obsessiva pra ajudar a lidar com essas incertezas da quarentena.  
 
Você vem roteirizando a websérie "As primas", que vem fazendo sucesso neste período. Como nasceu a ideia e como foi juntar este time em meio a um período tão turbulento?
 
A idéia original veio das atrizes Márcia Lohss e Titina Medeiros que pensaram em criar algo sobre o cotidiano da quarentena a partir da história de duas mulheres. Acabamos percebendo, contudo, que só com as duas ia ser pouco, porque nosso objetivo é justamente alcançar ao máximo essas vozes, essa diversidade. Aí criei as outras personagens, e virão mais ainda! Está sendo um desafio delicioso, principalmente pra Johan Jean, diretor e editor. As meninas filmam em casa , enviam, e ele edita as imagens, põe o som, vinhetas, algum áudio, o que for necessário. Está dando certo justamente por ser um alento às atrizes, que estavam sem trabalhar, e só um artista sabe o que é não poder exercer seu ofício, e também aos demais profissionais que estão trabalhando, criando, produzindo. Estamos também muito felizes pela excelente resposta do público que nos procura com ótimos comentários e sugestões. Ao final é uma grande experimentação, os episódios estão progressivamente melhores. 
 
Na sua percepção as pessoas estão consumindo mais literatura e arte em geral no confinamento?
 
 Olhe, é aquela coisa, o mundo não dá voltas, ele capota. Nesse filme ruim de terror que virou o Brasil, andava surgindo uma campanha informal defendendo que não se precisava de artista. Aí deu no que deu. É como dizia minha finada avó: ah, é? Mas já? Agora estamos assim, confinados, nos apegando justamente aos artistas que têm sido nosso respiro no meio desse pesadelo todo. Contra fato não existe argumento, não se vive sem arte, e ela deve sim ser valorizada como direito fundamental e essencial à humanidade. Então acredito que sim, que a arte não só está sendo mais consumida como também mais produzida.
 
Como será a produção cultural pós-pandemia?
 
 Bastante orgânica, creio. Estamos reaprendendo a viver, a nos posicionar frente ao mundo. E isso vai afetar diretamente a forma como produzimos a arte, principalmente como redescobrimos as formas de fazê-la chegar ao público, ou de como o público vai chegar à ela. Como será a relação com os espaços culturais, as relações sociais? Ainda não sabemos, é um aprendizado diário, não há certezas. 
 
Qual a sua visão sobre os artistas potiguares neste período de isolamento?
 
A mesma de sempre. Ainda somos bastante marginalizados. Têm surgido sim editais que quebram galhos, mas é imprescindível que o Poder Público tome medidas perenes, definitivas, que nos ajudem, nem digo a produzir arte apenas, mas a sobreviver. Agindo assim não estarão fazendo um favor, mas cumprindo com a obrigação do zelo para com os que lhes elegeram. Ficou mais claro do que nunca: arte é direito fundamental, reitero. Por outro lado o artista também deve assumir esse lado mais prático de sua carreira, não se acanhar em efetivamente cobrar pelo seu trabalho, estar mais à vontade com editais e planilhas e buscar formas de monetizar o seu ofício. E o público mais do que nunca, assumir o seu lugar de mantenedor dessa cultura, através do apoio financeiro aos artistas, já que está sendo o principal contemplado com o trabalho destes. Gostou do show, né? Pois tire o escorpião do bolso e colabore com os artistas!  Recadinho final: Pessoal lindas, por favor se inscrevam no canal do YouTube (aqui: https://www.youtube.com/channel/UC6iEaxtLwj-152lJ_irvwMQ ), compartilhem os vídeos aos amigos se gostarem. Se não gostarem repassem aos inimigos, mas repassem pra alguém (risos). E empresas, sua marca pode ser não apenas divulgada nos episódios, mas também ser parte da história. Economia criativa é aqui, meu amigo! Nos contate! Vamos girar esse mercado aí!