A questão não era a corrupção.

08/06/2020

Por: SERJÃO PINHEIRO
 
A questão não era a corrupção.
Passados esses meses fica claro que a questão nada tinha muito a ver com a corrupção.
Corrupção sempre existiu no Brasil.
Há leis para combater.
Há instituição para investigar.
Há instituição para denunciar.
Há instituição para julgar.
Evidente que há necessidade de continuar com os trabalhos contra a corrupção, sonegação de tributos  e outros crimes que afetam os cofres públicos sobremaneira.
Para isso, é preciso uma reestruturação nas polícias e nos órgãos de fiscalização de um modo geral.
É preciso aparelhar esses setores públicos com equipamentos modernos.
É preciso lotar as instituições públicas com maiores efetivos capacitados. 
Porém, antes da crise oriunda da pandemia do coronavírus, o governo se mostrava e continua disposto à diminuição do Estado e com isso atinge a sua capacidade fiscalizadora.
Por outro lado, está evidenciado o ódio contra a ação política da esquerda.
O preconceito para com os movimentos sociais.
A discriminação contra o poder de mobilização popular.
A preterição ante as ideias oriundas dos segmentos progressistas.
A luta que se apresenta hodiernamente para o povo é o da continuidade do Estado Democrático de Direito e do Processo Civilizatório – garantias constitucionais.
Se, nos chamados governos petistas, o movimento social foi de certa maneira cooptado.
No atual governo configura-se sua  extinção pura e simples.
Não há como aceitar isso.
A Constituição do Brasil e as leis infraconstitucionais precisam ser preservadas, fortalecidas e respeitadas.
O povo em hipótese alguma pode prescindir de seus mecanismos de defesa social.
Passou do momento, nesta república, de questões sociais, deixarem de ser consideradas casos de polícia. 
Chega!
Um presidente da república, nem ninguém, deve tratar manifestantes por “marginais e terroristas”.
Se, nas manifestações legítimas da população, há pessoas infiltradas para promover atos ilícitos, que os órgãos de inteligência planejem suas ações para detectá-las e levá-las às autoridades, para as providências cabíveis e legais.
Criminalizar os movimentos sociais tornou-se absurdamente política de governo.
As manifestações políticas e os movimentos sociais têm propósitos reivindicatórios.
Buscam protestar, criticar ou apoiar, com o objetivo de defender direitos, garantias e liberdades insculpidas na Constituição Federal. 
As manifestações devem ser respeitadas. 
Não importam se de esquerda ou de direita.
O presidente da república participa de manifestações onde são reivindicados: AI-5, fechamento do Supremo Tribunal Federal, do Congresso Nacional, intervenção militar etc. 
Muitos consideram tais pedidos liberdade de expressão, consequentemente legais, inclusive o próprio presidente, pois participou de várias e pelo visto continuará participando.
Ora, quando as manifestações são de membros da esquerda, logo aparecem os impolutos para tacharem de “terrorismo” - “vandalismo” e coisas que tais.
Infelizmente, houve violências nas manifestações que incluíam várias correntes ideológicas: esquerda, direita, centro... 
Profissionais da imprensa, da saúde, mulheres, homens, jovens foram agredidos.
Para essas agressões os rigores da lei. 
Para todos que violentarem nas manifestações públicas individuais ou coletivas punições exemplares.
A sociedade brasileira não aceita mais estado de exceção, ditaduras e aberrações do gênero.
Os que pregam o fechamento do regime costumam criticar as ditaduras de outros países. 
Consideram que só a ditadura deles é linda e maravilhosa.
Setenta por cento dos brasileiros não toleram mais retrocessos.
Se o governo não tem projeto para o país.
Se não tem capacidade de planejar, organizar e pôr em prática um trabalho para salvaguardar as pessoas notadamente as mais carentes de uma pandemia letal.
Se enxerga que não conseguirá estimular a economia pós-pandemia.
Que renuncie da gestão.
Agora, querer quebrar a democracia para esconder sua incompetência político-institucional, não tem mais espaço nos tempos atuais.
Segue o baile...
 
Natal, 08.06.2020.