Os Gigantes Adormecidos (Sleeping Giants) chegam ao Brasil

26/05/2020

Por: Homero Costa
 
Logo após  as eleições de novembro de 2016 nos Estados Unidos, com a vitória de Donald Trump, Matt Rivitz e Nandini Jammi criaram uma organização chamada Sleeping Giants  (gigantes adormecidos) que tem por objetivo persuadir  empresas a remover anúncios em sites que usam mentiras, preconceitos, ódios etc., ou, em suas palavras “Um movimento para tornar o fanatismo e o sexismo menos lucrativos”.
 
Naquele momento, foi criada uma conta no Twitter com o objetivo específico:  boicotar o Breitbart News, um site de extrema direita que teve com diretor Steve Bannon, um dos responsáveis pela campanha presidencial de Donald Trump em 2016. A missão principal era informar e alertar as empresas de que a publicidade de seus produtos apareciam em sites de extrema direita.
 
A estratégia era  usar os usuários de mídia social para pressionar os anunciantes com ativismo online. E deu resultado: De acordo com dados disponibilizados pela organização, em fevereiro de 2017, 820 empresas aderiram à campanha e pararam de anunciar no Breitbart News, entre elas a AT&T, Kellogg, BMW, Visa,  Nest e Warby Parker. 
 
Os prejuízos em publicidade foram gigantescos, somando milhões de dólares. Não por acaso Matt Rivitz  e seu filho receberam  sucessivas ameaças de mortes, especialmente quando julho de 2018  o website de direita  The Daily Caller  (sediado em Washington) informou quem o havia criado (até então a campanha tinha funcionado de forma anônima).  O site é conhecido por publicar artigos que contestam o consenso científico sobre mudanças climáticas, e é acusado  de racismo e anti-semitismo.
 
Embora no início a campanha tenha usado  principalmente uma conta no Twitter, depois passou também a usar uma no Facebook. Com o sucesso da iniciativa, expandiu-se para outros países como  Austrália, Bélgica, Canadá, Finlândia, França, Alemanha, Itália, Holanda, Nova Zelândia, Noruega, Espanha, Suécia, Suíça e Reino Unido. E mais recentemente, o Brasil.
 
Na França já  deu resultado, inclusive mudando a legislação:  foi  aprovada uma  lei − a Emenda Sleeping Giants− para evitar que anunciantes financiem o ódio e o extremismo online.
 
O que ficou demonstrado é que muitas vezes as agências de mídia contratam espaços sem atentar para o conteúdo dos sites, focado nas visualizações. O que a organização faz é alertar as empresas e em pouco tempo de funcionamento, o êxito é evidente não apenas em relação às conseqüências para o  influente  Breitbart News  como  tem servido de referência em outros países.
 
Segundo Matt Rivitz,  o Facebook e o Google,  embora tenham tecnologias capazes de não apenas bloquear mas de eliminar esse tipo de conteúdos,  controlando e manipulando algoritmos,  ao priorizar  as visualizações, pensa mais em lucros do que na qualidade (e conteúdo) do que é anunciado: quanto mais visualizações,  mais lucros e agindo  desta forma não contribuem para tornar a internet um espaço  seguro para os cidadãos, sujeitos a todo tipo de manipulações e mentiras.
 
Embora o foco inicial tenha sido algo específico,  ele pode ser mais amplo do que apenas as propagandas de empresas em sites de direita e extrema direita, podendo  também  ajudar a  combater a disseminação de noticias falsas e todas as formas de preconceitos.
 
 Em relação ao Brasil, uma matéria publicada no meio&mensagem “Perfil expõe marcas com anúncios em sites de fake news”,  informa que no dia 18 de maio de 2020 um usuário do Twitter criou o perfil Sleeping Giants Brasil, com o objetivo de avisar anunciantes que suas campanhas estão dando dinheiro para sites que propagam fake news: “Isso acontece porque, ao comprar anúncios em plataformas de mídia programática, a marca perde parte do controle sobre onde suas peças serão veiculadas”. E informa que apenas “nos primeiros quatro dias, a página do Sleeping Giants Brasil já contava com mais de 90 mil seguidores” e que além disso, conseguiu tirar de veiculação nos sites apontados campanhas de marcas como Dell, PicPay, Banco do Brasil. e Loft. (https://www.meioemensagem.com.br/home/marketing/2020/05/21/perfil-expoe-marcas-com-anuncios-em-sites-de-noticias-falsas.html).
 
O Jornal O Estado de S. Paulo, em matéria publicada no dia 24 de maio de 2020  “Perfil anti-fake news ganha adesão e incomoda Planalto“ informa que “Em apenas cinco dias de atividade (...) o perfil do Twitter Sleeping Giants Brasil, de ação anti-fake news, ganhou mais de 215 mil seguidores e obteve a cooperação de pelo menos 35 empresas de renome” e que “o modo de atuação é simples: eles verificam que anúncios estão sendo alocados -- por meio de uma ferramenta publicitária do Google -- em sites de fake news. É então feito um alerta às empresas anunciadas, que muitas vezes só especificam qual perfil demográfico de leitor querem atingir e não sabem que sua propaganda foi parar em um portal de notícias falsas. A companhia, então, informada do que está acontecendo, cadastra o endereço indesejado em uma lista negra, para que sua propaganda não seja exposta lá.
Por razões de segurança, tal como ocorreu no início nos Estados Unidos,  seus criadores decidiram por manterem-se  no anonimato.
 
O  rápido crescimento em poucos dias foi também matéria do  jornal El País Brasil publicada no  dia  23 de maio de 2020,  informando  que “em menos de uma semana, a versão brasileira do sleeping giants causou um terremoto nas redes sociais ao alertar companhias sobre propagandas em canais pouco confiáveis e gerar reações até mesmo no alto escalão do Governo de Jair Bolsonaro. Incomodados com a  atuação do perfil no Twitter, que já convenceu mais de 30 marcas e empresas a retirarem publicidade em sistema de mídia programática do Google do portal Jornal da Cidade Online, notório por propagar desinformação, apoiadores do presidente”. 
 
Por enquanto, segundo seu criador no Brasil, em entrevista exclusiva a Tilt  (Conteúdo de tecnologia do UOL) publicada no dia 23 de maio de 2020  por  Helton Simões Gomes, o foco inicial é o Jornal da Cidade Online “um dos principais sites de fake news do Brasil” (não por acaso, alvo da CPMI das Fake News no Congresso Nacional) mas a idéia, como ocorreu nos Estados Unidos, é se expandir. Segundo ele, a matéria do fact checking Aos Fatos foi à base para o foco inicial e que estavam analisando 104 sites “mas acreditamos que ali não estão todos”.
 
Um dos anunciantes do jornal  da Cidade Online é o Banco do Brasil, que decidiu vetar seus anúncios. No entanto, o filho do presidente da República e vereador no Rio de Janeiro, Carlos Bolsonaro defendeu a  sua permanência e o secretário de Comunicação do Planalto, Fabio Wajngarten não apenas o apoiou  como  também o setor de marketing do banco, chefiado  por Antonio Hamilton Rossell Mourão, filho do vice-presidente Hamilton Mourão,  que retirou a restrição de publicidade no site. 
 
No dia 22 de abril de 2020 um artigo publicado por Tai Nalon  (“Rede de desinformação do 'Jornal da Cidade Online' irriga site de viúva de Ustra”) informa que o site Jornal da Cidade Online “faz parte de uma rede articulada de desinformação que compartilha estratégia de monetização por meio de anúncios com o site Verdade sufocada, mantido pela viúva do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra (1932-2015) (...) Integrante de uma cadeia organizada de republicação de conteúdo identificado com a extrema-direita”. 
 
E que “a página do coronel é, além de um memorial ao primeiro militar condenado por sequestro e tortura durante a ditadura, um índice de publicações falsas ou enganosas a respeito não só do regime, mas também do governo Bolsonaro” e  que tem  sistematicamente republicado ataques contra o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e o governador de São Paulo, João Doria (PSDB).(https://www.aosfatos.org/noticias/rede-de-desinformacao-do-jornal-da-cidade-online-irriga-site-de-viuva-de-ustra/).
Na matéria “Grupo conservador  lança movimento contra o avanço do sleeping giants no Brasil” publicado no jornal Folha de S. Paulo no dia 22 de maio de 2020, informa que mais de 35 empresas já se comprometeram a retirarem anúncios digitais do site no entanto,  para se contrapor,  foi criado  um grupo intitulado Gigantes Não Dormem  auto-intitulado de direita e conservador que quer boicotar empresas que retiraram seus anúncios do Jornal Cidade Online.
 
Uma das empresas que retirou seus anúncios do jornal foi a Dell e o grupo criou uma hastag #NãoCompreDell, difundido nas redes sociais. Como explica Fernanda Costa-Moura, Professora do Programa de Pós-Graduação em Teoria Psicanalítica da UFRJ “Uma hashtag é uma palavra ou uma frase prefixada, precedida pelo símbolo # (hash, em inglês) e usadas para marcar mensagens individuais como pertencente a um grupo específico, ou marcar as mensagens como relevantes para determinados tópicos ou assuntos. Funcionam também como balizas para que os usuários encontrem e sigam (se filiem à cadeia) ou articulem listas de contatos ou apoios públicos com outros usuários de interesses semelhantes” (Ágora,  vol.17, Rio de Janeiro, agosto de 2014).
 
Quando os anunciantes são empresas privadas, fica ao seu critério manter ou retirar os anúncios. Mas quando são empresas estatais, é diferente porque se trata de dinheiro público e não pode ou não deve ser distribuído com critérios ideológicos. Nesse sentido, como informa a matéria do jornal El País no dia 21 de maio de 2020 “a Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão solicitou investigação sobre os gastos em campanhas publicitárias executados pela pasta chefiada por Wajngarten. O órgão do MPF aponta a escolha de veículos para propaganda por parte da Comunicação da Presidência em razão de afinidades ideológicas, além de acusar a Secom de direcionar verbas para sites alinhados a Bolsonaro e censurar mídias críticas ao Governo”.(https://brasil.elpais.com/brasil/2020-05-23/com-crescimento-recorde-sleeping-giants-irrita-tropa-de-choque-bolsonarista-dentro-e-fora-do-governo.html).
 
Com se sabe, Fabio Wajngarten é alvo de ação de improbidade administrativa, acusado de favorecer com  recursos da Secom, emissoras de TV que possuem contratos com sua agência de marketing. 
 
Em relação ao Jornal da Cidade Online, além da Dell, perdeu o banner fixo do Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso do Sul (TCE-MS), que determinou a retirada da publicidade.
 
O fato é que iniciativas como estas mostram a importância de combater a mentira, notícias falsas, o racismo, a homofobia etc., com  a mesma tecnologia e atuação permanente nas mídias sociais, como faz a  direita e a extrema direita, muito presentes e influentes, inclusive e especialmente em eleições, como ocorreu nos Estados Unidos em 2016, ajudando a eleger Donald Trump e no Brasil  na eleição de Bolsonaro.
 
Nesse sentido, a criação e expansão de sleeping giants no país  pode ser um passo importante no enfrentamento da pandemia da desinformação. Mas, como diz Ronaldo Lemos, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro,  no artigo “Contra fake news, siga o dinheiro” publicado no jornal Folha de S. Paulo  no dia 24 de maio de 2020, mesmo  reconhecendo sua importância,  “O Sleeping Giants, tem alcance limitado. Atua só com relação a uma pequena parte do dinheiro que financia fake news. Essa indústria envolve muitas vezes a prática sistemática de várias atividades criminosas , tais como falsidade ideológica, fraude processual e, sobretudo, lavagem de dinheiro (...) usa robôs e automação maliciosa para atacar pessoas ou minar o debate público e assim por diante”.
 
 E destaca o papel de instituições como o Judiciário e o Congresso que “podem fazer muito” e punir “quem pratica crimes para ocultar maliciosamente a autoria de campanhas massivas de desinformação”. 
 
A França mostra como é possível, criando uma lei para punir que pratica esses crimes e o exemplo dos Estados Unidos e outros países, mostram como o sleeping giants podem contribuir, embora não possa ir além  de denúncias. Cabe a outras instituições criar leis e aplicá-las. Mas é inagável que tem mostrado um enorme potencial de crescimento e no caso do Brasil, associado a sites como Aos Fatos, Catraca livre, E-Farsas, Boatos.org e Agência Lupa, podem alertar  empresas que financiam sites de direita e extrema direita,  que se alimentam de mentiras e notícias falsas. 
 
Agindo  assim,  cumpre um papel  importante. Como disse Matt Rivitz em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo no dia 22 de maio de 2020, as empresas precisam decidir se querem financiar ódio e desinformação anunciando em sites controversos  e que o esforço deve ser tornar o ódio e a desinformação não lucrativos, retirando o incentivo financeiro do racismo e da mentira online.