Isso que não ouso dizer, refrato

07/05/2020

Por: MARGOT MARIE
 
Ao segundo dia do mês de maio de 2020, vi nascer uma obra. Tive o privilégio de ver nascer sobre uma tela de LCD, sob tons de vermelho, uma espátula afiada e um artista em transe a mais nova obra de João Andrade, era: o autorretrato quando jovem. Não vi a obra em estado de acabamento, mas já era um esboço do que ali se mostraria dois dias depois. Hoje, dia chuvoso, saudoso, de um ano tenso e reticente, me deparei com a imagem já pronta do que ali eu vira surgir, vi por meio de redes sociais. Vi, em uma tela de uma única cor [vermelha] muita dor, muita tristeza, estampada no semblante do retratado.
 
Desde que vi a tela, desde que revi a tela, desde que li seu título, tudo passou a me incomodar neste dia. A tela, o artista, o poeta, a trajetória, os poemas, a história, tanta coisa, tanta tinta, tantos tons, tantos versos, tanta prosa, tanta dor, tanto vermelho... Mas o que dizer de tudo isso? Como dizer? Palavras me somem, palavras me gritam, palavras querem sair, mas não consigo grafar... sou tomada de um mutismo. Quero dizer tanto, e não consigo grafar um verso...
 
Aqui é uma tentativa, aposto até o fim que será frustrada, mas, mesmo assim quero esboçar. Eis-me aqui no terceiro parágrafo. Além do quadro que já chama a atenção por si só, por ser monocromático, o título é superinstigante: é uma denúncia, é um grito de socorro, é um eco desesperador de um artista em pleno fervor criacional. Ao ler o título, ele me soou familiar, mas não num tom meramente repetitivo. Era um tom de reverberação. Outros artistas já tinham pintado seus quadros, ora em textos: prosas e versos, canções, quadros, esculturas, entre outras manifestações...
 
Aqui posso citar algumas que me vieram à mente; retrato do artista quando coisa, título da obra de Manoel de Barros, título de outras peças homônimas, de disco de Luiz Melodia; O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, O retrato, de Gogol e, sem esquecer de mencionar o Retrato do artista quando jovem, de James Joyce... Mas por que isso perturbou/perturba tanto? Porque arte é retratar a si e ao mesmo tempo retratar o outro. É retratar o mundo.
 
Ao chegar o ponto de um autorretrato é chegar a um ponto de autoconhecimento e de autoencorajamento muito forte. É dar a cara a prova. É mostrar-se. É despir-se. É denunciar! Ao olhar intimamente uma obra de arte: ler, ouvir, apreciar, degustar e ver nas entrelinhas, nas entrenotas, nos entressabores é ver um pouquinho do artista. É ver um pouquinho de cada um de nós. A obra reflete. A obra refrata. Ela monta e ela nos desmonta. É função da arte nos desmontar. É belo, sim é belo... é triste e é belo. Mas é de fato arte se provocar reboliço. Se incomodar!
 
E esse quadro de João Andrade perturbou e perturba desde a primeira espatulada. Este quadro, diferente da maioria dos de Andrade, que têm traços dos pincéis, das canetas, dos traços delicados e precisos; este nasceu de pancadas, pancadas que rarefaziam a trajetória do jovem e hoje homem autorretratado na cor de sangue.
 
E por falar em história, e por registrar de um lugar de fala, de quem viu senão nascer, mas imprimir certas produções, uma vez que o poeta, o artista plástico, o pai de Joãozinho é o mesmo João Andrade, com pouco mais de meio século, cada verso, cada rima, cada linha, cada traço, cada enredo, enreda a si mesmo. E enreda em palavras-chave como: dor, abismo, punhal, solidão, estilhaços e, agora, salta aos nossos olhos: o rubro.
 
E por falar em obra, podemos estabelecer diálogos diversos. João Andrade nunca está sozinho. Ele sempre está acompanhado de muitos dele mesmo. Em estilos, em estética, por ora, podemos mencionar que ao passo que faz versos, passeia pela prosa: seus poemas denunciam tantas coisas... mas eles não dizem tudo e precisam de interlocutores, de leitores, de amantes. E o que dizer de sua prosa: tão poética, tão filosófica?!... E quando o artista não cabe mais no papel ele salta para cima de uma tela, ora de pano, ora de pedra, ora de pau, ora do que vier pela frente... ora, ora: Autorretrato quando jovem está sobre uma tela de LCD – o que ontem era TV, hoje traz outras transmissões, repare bem!
 
O artista tem fases, ora se mostra como a lua: cheio de palavras, cheio de prosas, de contos, de divagações, ora com seus quadros fragmentados, cheios de detalhes, muitas cores, muitas imagens; minguante e crescente, como em seus quadros minimalistas com poucas cores, poucos traços, ora poemas curtos, dísticos, tercetos, quadras, redondilhas; e novo – este é o melhor de todos, é o que traz a novidade, a renovação, o amadurecimento, o reconhecimento – é o monocromático, é o uno, que ao mesmo tempo é a reunião de todas as fases.
 
E por falar em fases quero destacar duas, em especial, marcar duas cores: o azul e o encarnado. Todas as cores têm seu charme e suas significações. Mas quero dar destaque a essa duas que mencionei: o azul, que muitas vezes nos remete a questão de paz, tranquilidade, harmonia, é em outra língua chamada de blue, e por sua vez, remete a outros sentimentos e condições: tristeza, melancolia, depressão, o que também por extensão gerou o título de um estilo musical blues, que traz canções altamente belas, mas de conotações carregadas de dor e melancolia.
 
Desse modo destaco aqui a cor azul na obra joãoandradeana, a primeira em menção e não em ordem cronológica, de um quadro em que o artista à época manifestava desejo em retratar sentimentos, ele produziu um quadro basicamente usando o tom azul, em que uma figura feminina aparece sugestivamente submersa em sua própria dor, o quadro remetia a algo diluído: talvez lágrimas, água, intitulado: olhos de tempestade.
 
O vermelho, é por demais sabido, que remete ao sangue, à vida, ao corte, à carne. Enquanto o azul pode estar no plano abstrato da dor, o vermelho traz a concretude do corte, do osso, da lanhura. Foi assim que vi nesses quadros monocromáticos do artista: momentos diferentes da dor da carne e da alma.
 
A meu ver, essas duas obras, ou pedindo licença para generalizar a toda obra joãoandradeana: seja prosa, verso ou plásticas é abstrata, impressionista [no sentido que impressiona também] e expressionista ao mesmo tempo, uma vez que sugere, uma vez que chama ao olhar mais aproximado, para decifrar detalhes [a impressão] e reveladora, chocante, perturbadora [a expressão].
 
E como disse anteriormente, o artista tem fases: fases fractais, coloridas, com figuras escondidas, segredos a serem visto nos olhares mais atentos dos apreciadores, há fases de estilhaços, poucas tintas, poucas cores, poucos traços largados e, por fim, o estilo de Autorretato quando jovem é o amanhã serei feliz.
 
Apreciar a obra de João Andrade é tornar-se um fã ou um cúmplice. É ter um pouquinho desse ser humano por perto. É ter um pouquinho de cada um de nós. Ora nos sentimos inteiros, ora em estilhaços. Desde a divulgação de Por sobre as cabeças, seguido por suas Cantigas de mal dizer, adiante com seu Livro de Palavra, depois em prosas fantásticas em Contos de escuridão e rutilância e agora nos nocauteados com os Estilhaços e Autorretrato quando jovem.