O direito de chorar por nossos mortos

06/05/2020

Por: THÉO ALVES
 
 
A Covid 19 fez com que o mundo todo precisasse encarar imagens duríssimas causadas pelo efeito devastador da doença, o que levou ao colapso sistemas de saúde de vários países e nos permitiu ver mortos em profusão, caixões empilhados, corpos deixados nas ruas, lugares simbólicos para todo o mundo absolutamente vazios, profissionais de saúde exaustos e improvisando equipamentos de proteção individual, famílias desesperadas por não poderem se despedir de seus mortos e tantas outras.
 
Todas essas cenas tristes somadas aos quase 10 mil mortos no Brasil são motivos mais do que suficientes para nos fazer refletir, solidarizar, sentir empatia, compaixão e tristeza. No entanto, não se pode dizer que nos tenha sido permitido chorar nossos mortos desde que tudo isso começou.
 
A negação do poder devastador da Covid 19 por parte do governo e de seus seguidores, os escândalos políticos, a instabilidade da equipe ministerial, o comportamento incompatível com o cargo e com a situação por parte do presidente, as manifestações que tentaram bloquear os acessos de trabalhadores e pacientes a hospitais, as agressões a profissionais de saúde e constantes ameaças à democracia têm nos obrigado a gastar tempo demais com a indignação e a revolta política em lugar de nos permitir apenas sofrer humanamente por nossas perdas.
 
Cidades como Manaus, Belém, Fortaleza e São Paulo beiram o colapso do sistema de saúde e funerário. 10 mil vítimas fatais é o número que se avizinha para os próximos dias. Pacientes são aconselhados a não buscarem os hospitais porque não há mais possibilidade de serem atendidos. A doença avança cada vez mais em direção a áreas mais pobres onde o isolamento e distanciamento social são praticamente impossíveis. As cidades do semiárido nordestino são o provável próximo foco da Covid 19 e o rastro de milhares de mortos se espalhará por toda a região. A quarentena, frequentemente desafiada e subestimada por autoridades políticas, tende a evoluir para um lockdown, palavra inglesa que nos distancia do impacto que se seguirá com o endurecimento das regras para o confinamento. Tanta coisa triste acontecendo, mas a todo momento algo em outro cenário nos desvia, nos afasta de chorar nossos mortos.
 
Lembro-me que, diante dos primeiros casos, era comum sabermos de quem se tratava, com quem o paciente tinha entrado em contato, onde vivia, como estava, etc. Aos poucos, os nomes foram dando lugar apenas aos números porque já não era possível localizar cada doente ou mesmo ter alguma informação sobre seu estado de saúde. Os números seguem aumentando em escala geométrica e começam a sobrar as aparas: dissemos, por exemplo, “mais de 5 mil mortes” quando o número exato eram 5.083. Era como se essas 83 pessoas fossem apenas sobras estatísticas. Mas os números voltam a ter nomes e histórias agora, porque já são tantos que toda vítima ou paciente é familiar ou amigo de alguém que conhecemos, quando não nossos próprios. A dor e o sofrimento estão cada vez mais perto de nós.
 
E tudo o que reivindicamos agora é o direito à dor de sentirmos, à empatia. O direito de nos preocuparmos com nossa saúde e das pessoas que amamos, dos nossos amigos, colegas de trabalho, vizinhos e conterrâneos. Queremos poder cuidar e amparar essas pessoas, que sejamos cuidados e amparados por outras. O que reivindicamos agora é o direito inquestionável de chorar por nossos mortos.