O que deixamos lá fora

03/05/2020

Por: THÉO ALVES
 
 
Todos nós deixamos algo para além das portas de casa nesta quarentena. Há sempre algo de que sentimos falta, que nos faz mancar com uma dor elegante pela saudade, seja alguém, alguma coisa, um hábito, um lugar ou atividade. Fato é que todos nós deixamos alguma coisa que nos é importante lá fora.
 
Mesmo que aproveitemos estes dias um tanto menos acelerados, longe do corre-corre habitual, das filas intermináveis dos supermercados, dos trabalhos que nos descaracterizam como gente e nos fazem enxergarmos a nós mesmos como máquinas produtivas, mesmo que tenhamos posto o mundo em espera, parte do que nos faz mais humanos está lá fora.
 
Tento me reorganizar, melhorar o ritmo e o fluxo do teletrabalho (me incomoda o termo home office), ter uma rotina mais humana e harmoniosa, mas meus filhos estão lá fora. Há mais de dois meses não os vejo e isso é absurdamente cruel para quem sempre esteve ao lado deles. Por mais que eu possa usar o tempo para fazer meu próprio pão, ler os livros que estavam empilhados à espera e ver filmes que eu tanto queria, são meus filhos que estão lá fora e não posso deixar de pensar no quanto a quarentena me maltrata por isso.
 
Sei que os novos tempos pedem de nós reinvenções, ressignificações. As mensagens pelo celular as chamadas de vídeo, as reuniões por aplicativos com meus filhos, minha mãe, minhas tias ganharam uma importância maior, assim como sua frequência. Mas como dizer que não sinto, numa noite de sábado como hoje, enquanto escrevo esta crônica que é quase uma carta, falta de abraçá-los, de beijar meus filhos, de suas presenças?
 
Aos que dizem, para politizar este momento, que a quarentena são férias para quem pode vivê-la, só posso pedir para que não sejam levianos assim: o país inteiro contabiliza mortos em profusão, mais e mais a cada dia, e nós somos obrigados a estar longe de quem amamos, de pessoas e coisas que nos dão significado à vida. Estamos dolorosamente apartados e isso não se parece com férias de maneira alguma. 
 
Há quem esteja longe de seus filhos, de seus maridos e esposas, namorados, amigos, parentes, colegas de trabalho. Há quem esteja afastado de suas caminhadas pela cidade, de suas corridas, dos cinemas, dos restaurantes, bares, dos esportes. Há quem não possa circular pelas ruas, fotografar, festejar, dançar nos clubes, rir alto com os amigos depois de uma cerveja ou um café. Há os que tiveram de cancelar encontros com o possível amor de sua vida. Há quem perdeu a chance de se apaixonar por alguém que conheceria no dia seguinte. Há as crianças que não encontrarão seus amiguinhos ou o acolhimento de seus professores. Há, por exemplo, os velhos que jogavam xadrez nas praças e em quem ninguém pensa. Ou os vendedores de porta em porta, os que se reuniam nas igrejas ou clubes de leitura, os frequentadores de bibliotecas, os que iam a sebos sujar os dedos em discos e livros carregados das histórias de outras pessoas. 
 
Todos nós deixamos lá fora alguém, alguma coisa. Todos nós estamos parte aqui, parte lá também.