E agora?

30/04/2020

Por: THÉO ALVES
 
Neste exato momento, ninguém em qualquer outro país poderia imaginar que a resposta de seu líder diante da morte de 5 mil pessoas seria “e daí?”. Nem mesmo Donald Trump e sua habitual falta de tato, para não dizer grosseria deslavada, cheio de respostas atravessadas, mostraria tamanho desprezo pelo povo a quem governa.
 
“E daí?” foi a resposta/pergunta retórica do presidente Jair Bolsonaro quando questionado por uma jornalista a respeito das mais de 5 mil mortes por Covid 19 no país, número atingido em 28 de abril. Esse número ultrapassa, por exemplo, a estatística oficial de mortos da China, primeiro epicentro da doença. Além disso: são mais de 5 mil cidadãos, são famílias, mães, pais, filhos, avós, histórias, comunidades a quem o presidente dedica um “e daí?”.
 
Os dados oficiais apontam 5.083 mortos até a data. Um número tão brutal que passamos a desprezar essas 83 mortes que ultrapassam as 5 mil arredondando esses valores, como se aquelas 83 pessoas fossem somente aparas de uma estatística. O desprezo do ainda presidente vai além das 5.083 pessoas que morreram devido ao Corona vírus: ele atinge suas famílias, os cidadãos de todo o país, os trabalhadores a quem direitos têm sido negados em nome de uma suposta proteção à economia, inclusive aos seus eleitores, ainda que muitos deles tentem relativizar as falas de Jair. Este exercício, inclusive, é cada vez mais difícil e exige contorcionismos de interpretação textual que ultrapassam qualquer possibilidade da língua.
 
Mas, convenhamos, “e daí?” é possivelmente a resposta/pergunta que melhor define o momento deste governo. Afinal, essa é a pergunta mais vazia que se pode fazer e se torna ainda pior quando é dada como resposta. “E daí?” não diz nada de fato, não explica, não justifica, não exemplifica, não esclarece, não aponta, não resolve, não se ressente. “E daí?” revela desinteresse, desprezo, desrespeito, falta de cuidado, de empatia. Diante disso, seria possível imaginar algo que desse contornos mais precisos à gestão de Jair? O desprezo pela morte de 5.083 brasileiros não pode causar espanto diante de quem já tinha desprezado e ofendido mulheres (entre muitas outras, basta lembrar suas ofensas à deputada Maria da Rosário), negros (como esquecer as arroubas do povo quilombola, tratado como preguiçoso, incapaz até de procriar?), indígenas (que não teriam direito a, segundo o presidente, nem um centímetro de terra durante sua gestão), homossexuais (cuja homossexualidade resulta da falta de surras, segundo o próprio Jair) ou a população mais pobre (200 reais era o valor proposto pelo governo para auxílio durante a pandemia e isso é apenas um dos inúmeros exemplos listáveis). 
 
No Brasil e em todo o mundo a resposta/pergunta de Bolsonaro ecoa nas manchetes dos maiores e menores jornais. As pessoas reagem boquiabertas a isso que só pode ser chamado “declaração” em um governo tão marcado pelas mais diversas formas de violência. Essa inabilidade, falta de empatia e desprezo por seus cidadãos – que não receberam a mínima nota de pesar – já foi longe demais. É preciso pará-la com urgência e para isso é necessário que as instituições exijam o respeito que os brasileiros merecem, mesmo que em meio a um momento tão delicado e assustador como o de uma pandemia.
 
Os poderes legislativo e judiciário não podem mais fechar os olhos para a conduta do presidente, ainda que este ande cada vez mais isolado politicamente, com seu mandato cada vez mais sufocado pelos escândalos recentes envolvendo a Polícia Federal e o Ministério da Justiça. E são tantos os escândalos desde que seu governo começou. É urgente que se faça alguma coisa. Por isso, a pergunta a ser feita a essas figuras neste momento é: “e agora?”