Moro x Bolsonaro

28/04/2020

Por: IONARA NUNES
 
 
“Eu vejo uma coisa só”, proferiu a advogada Rosângela Moro em entrevista a uma conceituada revista no mês de fevereiro deste ano. De lá para cá muita coisa mudou, mas uma coisa é certa: a esposa do ex-juiz e agora ex-ministro não errou em sua análise, pois ambos, Bolsonaro e Moro, são realmente uma coisa só.
 
O povo brasileiro, em sua eterna carência de tantas coisas, está sempre à espera de alguém iluminado e acima do bem e do mal que venha ser o salvador, o redentor de todos os males, da política ao futebol, e isso pelo jeito não está nenhum pouco perto de mudar, pois se analisarmos a história, antiga e atual, vemos que o povo está sempre pronto para acolher o herói de ocasião, e quando esse herói sucumbe à sua falível humanidade, o mesmo povo passa a odiá-lo com todas as forças, mas já estará preparado para transferir a paixão para o próximo candidato a redentor que estiver na fila.
 
Em um passado recente, ainda como juiz da famosa Operação Lavajato, Sérgio Moro despontou do anonimato para a fama, ficando conhecido como o grande herói nacional que estava predestinado a combater a corrupção e, seu trabalho messiânico, fardo tão pesado para um simples homem mortal, colocou na cadeia muitos vilões e até um então herói para tantos, o Ex-Presidente Lula. Após este feito e com toda a publicidade envolvida, as coisas começaram a mudar para o juiz, para o bem e para o mal.
 
Em paralelo, um capitão que foi expulso do exército e que ocupava há trinta anos uma cadeira no Congresso Nacional despontava como o “mito”, outro homem iluminado e predestinado a salvar o Brasil da corrupção, pois o povo já estava cansado de tantos escândalos e a operação da Polícia Federal, junto com a mídia, potencializavam a exposição de mais e mais casos, pessoas e partidos. Um caos.
 
Acontece que tanta exposição um dia cobra seu preço e tanto Moro quanto Bolsonaro ao se tornarem figuras unânimes, míticas, essenciais, com tantas similaridades, um dia inevitavelmente formariam uma linda união, o casamento perfeito, o amor inabalável, só que não!
 
Aos poucos Moro foi se revelando e Bolsonaro foi ganhando mais e mais apoiadores e, em 2018, foi eleito Presidente da República tratando logo de convidar o então Juiz para ser Ministro da Justiça. De pronto foi aceito. Estariam eles envolvidos antes da campanha? Afinal, o principal adversário de Bolsonaro e anterior herói nacional, tinha sido preso por Moro e em seguida ele recebeu o convite. As revelações do The Intercept evidenciam que para atingir o objetivo proposto foram admitidos até atos que figuram também como corrupção, a vida é irônica!
 
Tempos depois começaram a surgir os escândalos de laranjal de Flávio, Queiroz, milícias, caso Marielle, morte do Ex-PM Adriano e o que fez o Ministro da Justiça símbolo máximo da luta anticorrupção? Ficou em silêncio. Passou mais de um ano vendo a cada dia o governo Bolsonaro se atolar em escândalos e nenhuma providência tomou. Até que um dia resolveu fazer uma coletiva para informar que estava deixando o Ministério da Justiça com revelações bombásticas sobre o governo que ele ajudou a criar e manter.
 
O que Bolsonaro fez em seguida? Além de proferir as loucuras de sempre em um pronunciamento completamente sem pé nem cabeça, revelou que ele teria negociado sua ida para o STF em troca da demissão do Diretor da Polícia Federal, homem de sua confiança. Moro nega.
 
Os apoiadores de Moro dizem que ele saiu porque o presidente estava tentando interferir em investigações sigilosas da PF que envolvem seus filhos. Já Bolsonaristas dizem que Moro é um oportunista com ambições políticas que só saiu do governo porque não conseguiu o que queria: a indicação para a vaga de novembro ao STF.
 
E em qual herói caído devemos acreditar? Nos dois!