Cento e seis sepultados em vala comum em Manaus

22/04/2020

Por: THÉO ALVES
 
Algumas semanas atrás, imagens da Itália chocavam o mundo: o Papa atravessando a Praça de São Pedro para celebrar a missa de páscoa absolutamente sozinho, onde a multidão habitual movida pela fé deu lugar ao vazio gerado pelo medo; um comboio do Exército, formado por quinze caminhões fechados, cruzava as ruas vazias de Bergamo carregado de caixões para a cremação. Duas imagens que poucos roteiristas de cinema ou escritores seriam capazes de imaginar antes que a realidade da Covid 19 nos arrebatasse.
 
Agora, enquanto o governo ainda tenta politizar o caos da pandemia em um jogo de xadrez brutal no qual a democracia e o bem-estar do povo são apenas dois meros peões, a imagem acontece no Brasil, em Manaus: uma retroescavadeira abre uma vala comprida, imensa, e homens vestidos como escafandristas vão depositando caixões lacrados na terra para serem cobertos depois. Nenhuma cerimônia, sem a despedida dos que ficaram, vítimas da Covid 19 e do descaso.
 
Às vezes me dá a impressão de que quem ouve falar no Amazonas parece ouvir sobre uma entidade, uma luz sem matéria, sem realidade nossa, fruto dos livros, de filmes ou histórias folclóricas: como se não houvesse gente de carne, ossos e sangue por lá. Se a cena fosse em São Paulo ou no Rio de Janeiro (ainda que tenhamos visto coisa parecida na capital paulista), talvez nos comovêssemos mais. Talvez.
 
Mas agora é preciso ler atentamente este número: 106.
 
Cento e seis pessoas foram sepultadas em Manaus apenas no dia 21 de abril. Cento e seis. 106. Em um dia. 1 dia.
 
Das cento e seis, trinta e seis delas morreram em suas casas, não por terem assim escolhido ou para poderem estar com as pessoas amadas neste último momento: estavam em casa porque não era possível irem a outro lugar, porque não havia atendimento para elas diante do colapso iminente do sistema de saúde, assim como o colapso do setor funerário. 
 
Diante da imagem da retroescavadeira e dos caixões enfileirados sobre a terra bruta, o número cento e seis é quem martela os pregos de cada caixão. Não é mais possível dizer “Fulano morreu de Covid...” ou “Beltrano, irmão de Fulano, morreu de Covid...”. Não há mais tempo para nomes, para histórias, familiares, amores, amigos, passados, expectativas, esperanças, sonhos, futuro, carreira, aprendizados, superações... só há espaço para números: 106 e 21 do 4. 
 
Em frente aos caixões lacrados, nenhum filho ou mãe de algum daqueles mortos. Eram todos filhos, mães e pais de outras pessoas que não estavam ali. Na vala, aberta por antecedência dado o imenso número de mortos e a pressa para enterrá-los, só números. 106.
 
Depois da retroescavadeira cobrindo caixões, ainda será possível relativizar a doença e a maneira como ela nos afeta enquanto povo, enquanto espécie? Os números do isolamento social, por exemplo, despencam ao mesmo tempo em que o de contagiados dispara. De Brasília, cidade com uma das melhores redes – e mais caras – hospitalares do país, dizem que precisamos retornar à normalidade. Porém, qual é a normalidade dos cento e seis sepultados em vala comum de Manaus apenas ontem? Qual é a normalidade de suas famílias agora? O que é essa tal normalidade para os servidores da saúde que estão exaustos, quebrados, afastados de suas famílias, contaminados neste momento?
 
A Covid está destruindo Manaus e boa parte do país, mas a nossa letargia é sinal de uma doença maior e mais perversa.