Não se morre de nada além do tédio

13/03/2020

Por: Thiago Medeiros
Foto: Arquivo pessoal
 
Não é o primeiro fim do mundo que recordo. O primeiro foi há muito tempo, devia ter uns quatro anos. Infelizmente fui um leitor precoce, e minha cabeça só funciona bem para o que está escrito. Uma das minhas leituras preferidas era uma cartilha de prevenção à AIDS. Colorida, praticamente um quadrinho. Os Soldadinhos da Saúde amarelos, de moicano arco-íris e escudo, fugindo de um monstrinho redondo, medonho e verde, de lança na mão. Palavras que não faziam sentido; contato sexual, camisinha, ânus, sexo oral. Sintomas; sapinhos na garganta - que me soava lúdico e ligeiramente nojento, talvez daí meu asco por anfíbios, principalmente rãs - dificuldade em engolir, manchas no corpo. Via cada um deles em mim.
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Depois, o cólera. Crianças com roupa descoladas na TV e o rap, desidratação, vamos dar a solução... Soro caseiro, soro caseiro... Uma pitada de sal... E duas colheres de açúcar...
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H1N1... Eu tendo mais medo de dar diferença no caixa do banco ao final do dia que efetivamente morrer de algo que vinha da Ásia, e não era a Lua - obrigado, Campos de Carvalho. Mas a instituição tão humanitária de quem eu mendigava o sustento - e era perseguido simplesmente por não gostar de estar ali, afinal, não basta ter que trabalhar tem que idolatrar o arrocho, endeusar o arrombo - nos deu álcool em gel.
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Zika e Chikungunya... A mãe da minha filha banhada em repelente... Latas de venenos, incensos de citronela, raquetes eletrificadas, água do cachorro trocada duas vezes ao dia, camisas de manga longa em pleno 29 graus das noites do agreste...
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Agora é diferente. Percebo no medo do meu pai. Crio teorias. Redes sociais. Materializamos através do Whatsapp uma estrutura imaginária: o inconsciente coletivo e sua contante histeria.
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Não acho que não é grave. Só acho que é mais um fim do mundo. Já deveríamos estar acostumados e acostumadas a isso. O tédio vai voltar e banalizar o pânico. O tédio vai voltar e nos matar novamente aos poucos. E o mundo vai acabar, de novo... Não tenho medo... Tenho medo do que vai surgir... Um restolho, frangalhos de terra, inundando o mar de recipentes plásticos que outrora estiveram cheios de álcool em gel...