Queremos viver sem medo.

08/03/2020

Por: Ana Laura Araujo
No nosso mundinho ocidental, o dia Internacional da Mulher foi criado em homenagem às 129 operárias estadunidenses mortas num incêndio intencional havido em uma fábrica têxtil, no dia 8 de março de 1957, em NY. Elas teriam sido mortas supostamente por lutar - em greves e levantes - pelos direitos trabalhistas, ainda inexistentes.
 
Embora seja essa a história mais conhecida e o incêndio não tenha sido falso (mas não desse jeito que nos foi contado) não é a verdadeira história da origem do dia internacional da mulher.
 
O primeiro registro remete a 1910. Durante a II Conferência Internacional das Mulheres em Copenhague, na Dinamarca, Clara Zetkin, feminista marxista alemã, propôs que as trabalhadoras de todos os países organizassem um dia especial das mulheres, cujo primeiro objetivo seria promover o direito ao voto feminino. 
 
A reivindicação (voto) também inflamava feministas de outros países, como Estados Unidos e Reino Unido.
 
No ano seguinte, em 25 de março, ocorreu um incêndio na fábrica Triangle Shirtwaist, em Nova York, que matou 146 trabalhadores - incluindo 125 mulheres, em sua maioria mulheres imigrantes judias e italianas, entre 13 e 23 anos. A tragédia fez com que a luta das mulheres operárias estadunidenses, coordenada pelo histórico sindicato International Ladies' Garment Workers' Union (em português, União Internacional de Mulheres da Indústria Têxtil), crescesse ainda mais, em defesa de condições dignas de trabalho. As russas também tiveram um papel central no estabelecimento do 8 de março como data comemorativa e de lutas. 
 
Por “Pão e paz”, no dia 8 de março de 1917, no calendário ocidental, e 23 de fevereiro no calendário russo, mulheres tecelãs e mulheres familiares de soldados do exército tomaram as ruas de São Petersburgo. De fábrica em fábrica, elas convocaram o operariado russo contra a monarquia e pelo fim da participação da Rússia na I Guerra Mundial. 
 
A revolta se estendeu por vários dias, assumindo gradativamente um caráter de greve geral e de luta política. Ao final, eliminou-se a autocracia russa e possibilitou-se a chegada dos bolcheviques ao poder.
 
A atuação de mulheres russas revolucionárias como Aleksandra Kollontai, Nadiéjda Krúpskaia, Inessa Armand, Anna Kalmánovitch, Maria Pokróvskaia, Olga Chapír e Elena Kuvchínskaia, é considerada imprescindível para o início da revolução. A história real do 8 de março é totalmente marcada pela história da luta socialista das mulheres, que não desvincula a batalha pelos direitos mais elementares - que, naquele momento, era o voto feminino - da batalha contra o patriarcado e o sistema capitalista.
 
Acredito que nos arranjos de invenção e apagamento de fatos do período da guerra fria, para criação de mundo bom (ocidente capitalista) e mau (oriente socialista) houve bastante articulação histórica para esvaziar o conteúdo político do 8 de março e transformá-lo em “uma data simbólica fofa” e em um nicho de mercado, apagando sua origem operária e reafirmando os estereótipos de gênero que tanto nos oprimem. 
 
Na nossa cultura capitalista ocidental, nós recebemos parabéns por sermos “fortes” (as que sofrem abuso e jamais fazem escândalo, ou que assumem todas as responsabilidades sozinha), “guerreiras”, mas dóceis, dedicadas, mães devotas e incansáveis.
 
Homens "agradecem" mulheres por elas fazerem o papel a que são submetidas: 
 
servas. 
 
Cuidadoras. 
 
Serviçais. 
 
Mas tudo por amor. Por vocação. Por instinto. 
 
Porque somos mulheres.
 
E haja flores. 
 
E haja dia da beleza.
 
A gente não quer isso. A luta não é essa.
 
Queremos andar na rua e não sofrer assédio. Queremos estar em casa e não apanhar de marido. Queremos que nossas filhas possam viver livremente sua sexualidade sem julgamentos. Queremos viver sem violência e que parem de nos matar. Queremos ter direito ao nosso próprio corpo.
 
Queremos a igualdade de gênero que está escrita na constituição. A igualdade no trabalho, no salário, nos trabalhos reprodutivos (cuidados com a família, casa, educação dos filhos).
 
Queremos viver sem medo.