Dia Internacional das Mulheres?

08/03/2020

Por: Graça Leal
 
Que dia é esse se somos desrespeitadas, espancadas, mutiladas, violadas e assassinadas? Como festejar, dar um salve para as guerreiras que tombam todos os dias?
 
Ainda jovem, por volta dos anos 70, era estudante de uma universidade bastante conceituada do Rio de Janeiro, me lembro que todas as pessoas eram muito lindas e tinham carro, menos eu, que era apenas uma aluna que lia e estudava muito as obras de Freud porque trabalhava na Imago Editora e tinha acesso a obra completa. Fiz o meu primeiro estágio em um Presidio Feminino próximo ao Pinel (Hospital Psiquiátrico) embora não tenha escolhido esse lugar, meu professor me convenceu que era muito importante pelas minhas posições de esquerda pois eu vinha de uma formação política da Igreja bem vermelha e que meu olhar traria um novo recorte etc. De posse de um monte de questionários lá fui eu e quase desisto da empreitada logo de cara. Elas eram tão tristes... não de uma tristeza propriamente dita, era uma tristeza embaçada, perdida quase fúnebre. A sala era cinzenta, escura, com poucaluz e a disposição do espaço era de uma sala de aula. Eu pensava só comigo:" Eu não estou aqui para dar aula, eu estou aqui para aplicar um questionário que eu não fiz e que não tem nada a ver com que eu penso". Respirei fundo e falei: " Bom dia, meu nome é graça Pereira eeu não sei se vou ser psicóloga". A sala explodiu em risadas e eu aproveitei a deixa e as convidei para fazer um exercício respiratório, percebendo a entrada e a saída do ar. Foi lindo e aos poucos a sintonia era quase uníssona e fomos nos juntando até que formamos uma massa humana, uma espécie de átomo. Sentamos em seguida já em um círculo e eu esqueci do questionário e comecei a perguntar: "O que dói em você?" e as respostas vinham ora agressivas, ora suavemente dolorosas: " o meu coração, a minha pele, a minha xoxota, o amor, a saudade, o meu peito, a solidão e daí por diante eramos todas "Macabeas" porque eu também me duia sem saber onde. Estagiei ali por quase um ano quando fui convidada a abandonar meu curso. Mas o que eu quero escrever hoje não tem haver com a minha história e sim com a de mulheres que ao longo da minha vida carrego dentro de mim.
 
Aprendi com elas que ser mulher é uma escolha, um desejo infindável de dar continuidade a vida...
 
Segui com esse sentimento deixei a universidade e Freud ficou para trás. Fui trabalhar em uma companhia de disco onde as mulheres também eram sacaneadas as escondidas pelos homens do meu departamento de: "vagabas", "galinas", "cabritas", " cuzeiras", "malandras" etc. Eu exercia um cargo acima de alguns mas o meu apelido era: "Vacilou... Dançou..." por causa da minha militâcia, e eu botei muita qlgente prá dançar e também dancei. Dancei e case nos anos 80. Mudei o foco, fui fazer formação em Arte Educação e Dança, me tornando então: arte- educadora, coreógrafa, bailarina e terapeuta corporal quando fui trabalhar com mulheres na Favela da Rocinha sobre: corpo, empoderamento, artesanato e autonomia. Militando e lutando pir respeito e dignidade para com as mulheres quando a liderança comunitária e parceira do nosso trabalho Maria Helena, mergulhou num rio de sangue no meio da favela. Uma mulher jovem, cheia de vida e sonhos, teve seu corpo estendido no chão. Tempos de Chumbo, mas a gente juntava gente e levava a luta em frente. Ajudávamos umas as outras com nossos filhos e filhas, emprestava a casa, vendia obras de arte para trazer os amigos que haviam fugido para não morrer e quando eles chegavam traziam notícias das dezenas de companheiras abatidas como pássaros pelos bichos machos escrôtos que antes de matar violentavam na frente dos companheiros. Era tão dolorido que para não sucumbi, eu dava aulas de dança e dançava a vida que me brotava na companhia de meus e minhas filhas.
 
Eu já morri muitas vezes, vendo as mulheres serem espancadas, enloquecendo devagarzinho, sendo esculhambadas em via pública, esporradas dentro de ônibus, e nunca me calei e mesmo assim elas continuam sendo mortas e hoje neste momento em que escrevo centenas de mulheres estão sendo violadas ou assassinada eu lhes desejo um lindo dia de luta porque para o o meu corpo e minha alma hoje 08 de Março é o dia da DOLORIDADE FEMININA.