Um jipe no céu

29/11/2019

Por: Janduhi Medeiros
 
Um jipe no céu
 
Toda cidade interiorana, especialmente as do Seridó hebraico, tem um maluco, ou uma maluca que falou: “aqui, pra ser doido, tem que ter juízo”. Em Ouro Branco, esse ditado célebre era atribuído a Cristina Doida, a doida mais inspirada e humanitária do hemisfério de Orilo Dantas, cambista e amiga dos cachorros. Em Caicó, como não poderia deixar de ser, ao inesquecível Zé Keté. 
 
Assim como outros - e Caicó tinha muitos, Zé Keté era uma figura gigante na comunidade e, também, merecia uma estátua carimbada na cidade, num álbum destacado, página central, para que todos pudessem tirar uma foto ao seu lado e de um jipe imaginário, que ele sempre guiava. Isso mesmo, Zé Keté tinha um jipe imaginário, que só ele e os deuses da compreensão viam. Certa vez, Mário Quintana falou que “o verso é um doido cantando sozinho. Seu assunto é o caminho. E nada mais! O caminho que ele próprio inventa...”.
 
O caminho de Zé Keté era deslumbrante, infinito e também poético. Ele só podia percorrê-lo num jipe imaginário, imperceptível aos olhos mortais, mas real ao sentimento e à emoção dos eternos, à emoção de entender que a felicidade existe nesses caminhos poéticos, que a vida nos oferenda nas folhas do caderno da nossa existência. 
 
Zé Keté era um maluco admirado em Caicó. A cidade inteira tinha o maior carinho por ele, daí a sua beleza fascinante. Às vezes aparecia um imbecil, agressivo e carregado de ódio, que o maltratava, mas era condenado pelo sentimento da paz coletiva, pois Zé Keté era uma figura agradável e recheava de regalo à imaginação lúdica de adultos e crianças, pois era dotado de sensatez divina. Isso, certamente, causava inveja aos pseudo-humanos, tolos, dominados pelos valores do preconceito e da violência. 
Corria pela cidade uma história que ele fora vencedor de um bingo, no interior da Paraíba, exatamente de um Jeep, mas o enganaram e o veículo não foi entregue. Não se sabe exatamente os detalhes desse caso, mas era atribuído a isso o motivo do seu desalinho mental. 
 
A partir daí, ele passou a dirigir um jipe, um jipe imaginário, que ele ganhou do sonho prazeroso das noites e dos dias da poesia, uma espécie de vingança​filosófica aos que o enganaram, passando a viver, assim, nos dois mundos, o mundo dos interesses ​materiais e um mundo utópico, do deslumbramento e dos devaneios, alegrando as veredas tortuosas do Seridó, com um comportamento aparentemente ingênuo, mas perfeitamente realista. Com o seu jipe imperceptível aos olhos, mas concreto à euforia do peito. Nosso maluco beleza passou a correr pelo sertão, como um andarilho que busca plantar paz nas terras conflituosas do Sol, em seu jipe encantador. 
 
Era uma espécie de Dom Quixote, mas armado apenas de encantamento. Não tinha cavalo, mas um jipe de luz prateada, invisível. 
 
Certa vez, falaram em Caicó que Zé Keté foi visto estacionando seu jipe na feira do Alecrim, em Natal. A feira parou para ver como se estaciona um veículo sem qualquer indício de estresse. 
 
Ele dirigia sua viatura pelas rodagens, sobretudo no sertão, mas às vezes aceitava uma carona, em qualquer modelo de carro. Mesmo em cima de um caminhão, ele não abandonava seu jipe, pois o levava no seu sorriso, sempre com o tanque cheio do combustível regojizante. 
 
Uma vez, vi Zé Keté entrando em Caicó numa carona, num Jeep Willys, ao lado do motorista. Claro, ele guiava o seu carro também, como se fora o dono dos dois, e o verdadeiro proprietário, do veículo real, de carona na felicidade do nosso admirável maluco. Nesse episódio, o sorriso de Zé Keté era do tamanho do céu sertanejo, quando a tarde se prepara para uma chuva de um bom inverno. 
 
O jipe de Zé Keté tinha freio, pisca-pisca, porta, direção, retrovisor, pneu, banco e rádio. Tudo que um Jeep de ferro tinha. O jipe maluco de Zé Keté tinha, talvez até mais, pois o carro de Zé Keté iluminava as mentes tristes da cidade. Num finalzinho de tarde, daquela época, em Caicó, ele estacionou seu carro, na esquina do mercado, pisou no freio, que fez barulho, abriu a porta, travou e saiu, exatamente igual aos proprietários de jipes reais, numa realidade incrível de um mundo inexistente. 
 
Em meados dos anos setenta, vim morar em Natal, mas Zé Keté nunca saiu da minha lembrança e continuou dirigindo seu carro imaginário, o jipe dos meus sonhos. Ele não morreu e com o seu carro se encantou nas histórias lúdicas do Seridó, deixando nas veredas do sertão rastros de um tempo imaginário. 
Penso que Zé Keté entrou no céu, com o seu jipe, estacionou no pátio do paraíso, onde as nuvens nascem.