Geraldo: Um pintor

13/07/2019

Por: Ana Cláudia Trigueiro
 
Salão de um posto do SINE onde estão quatro atendentes e trinta trabalhadores.
 
— O próximo...
 
Geraldo se levanta e vai até o guichê número quatro.
 
— Bom dia, senhor! Em que posso ajudar?
 
– Tem vaga, moça?
 
– Vamos ver. O senhor trabalha com o que?
 
— Eu sou pintor. Faço de tudo com tinta: pinto parede, porta, palanque. Pinto com tinta, verniz, esmalte. Pinto com pincel, com trincha, com rolo. Mas antes eu lixo, que para passar tinta nova, antes tem que tirar a velha. Depois eu...
 
— Certo, certo. O senhor pode me dar sua carteira de trabalho, por favor?
 
— Sim senhora!
 
— Hum, aqui diz que o senhor tem cinco anos de experiência.
 
Isso mesmo. Cinco anos na construção civil. A senhora sabe o shopping da cidade, onde todo mundo gosta de passear e gastar dinheiro? Pois fui em quem pintou ele. Em cada canto das entradas, por debaixo dos rodapés, eu escrevi meu nome: GE-RAL-DO. Ninguém vai saber, mas também tenho parte naquele lugar e precisava registrar.
 
— Eu entendo. Aqui diz que o senhor não terminou o ensino fundamental.
 
— É que comecei a trabalhar cedo, moça. Com catorze anos eu já ajudava meu pai e meu avô a pintar casa. Eu já não gostava muito das letras. Ia para a escola, mas não conseguia entender os estudos. Quando arrumei meu primeiro emprego com carteira assinada, desisti.
 
— Mas o senhor sabe ler e escrever?
 
— Sei sim, senhora! E também sei fazer as quatro operações, que aprendi com os colegas de trabalho. Era pintando parede e fazendo cálculo. Eu botei na cabeça que aprendia a dividir. Somar nem tanto, que pobre soma desde que nasce: soma pobreza, com fome, doença com desengano e por aí vai. 
 
 - Diminuir, também não vi dificuldade: pobre diminui desde que nasce: diminui de tamanho, de peso, de tempo de vida e de vontade de viver. Chega uma hora que o desespero é tão grande que dá vontade de morrer. A multiplicação é uma conta interessante: é fácil multiplicar carinho, é fácil multiplicar amor, mas a gente às vezes se nega a fazer a conta do jeito certo, porque está com a soma dos infortúnios perturbando a cabeça. Dividir é que é a conta mais difícil! E talvez a gente tem é raiva da divisão, por isso é que nunca aprende direito! Porque quem é pobre já nasce tendo que dividir o muito pouco que tem. É complicado! É muita ciência! A senhora já tentou dividir um salário mínimo por um mês inteiro, tendo que sustentar sete bocas? A prova dos “noves fora” nunca dá certo!