Presidente da Catalunha declara vitória no referendo de independência

01/10/2017


Foto: Presidente da Catalunha, Carles Puigdemont - LLUIS GENE / AFP

O presidente regional da Catalunha, Carles Puigdemont, declarou a vitória dos separatistas após o referendo de independência realizado neste domingo. Antes mesmo da conclusão da contagem dos votos, ele disse em pronunciamento que vai pedir à Assembleia Nacional da Catalunha que proclamem o divórcio com a Espanha. De acordo com o líder catalão, o povo da região autônoma "ganhou o respeito da Europa".

— A situação gerada na Catalunha é um assunto europeu. Hoje a Catalunha ganhou em muitos referendos, hoje milhões de pessoas mobilizadas falaram alto e claro: temos direito a decidir nosso futuro, queremos viver em paz, fora de um Estado que impõe e usa a força bruta — declarou.

Ele enviou uma mensagem aos mais de 840 feridos em confrontos com as forças de segurança espanhola, que tentaram bloquear os centros de votação.

— Várias vezes a repressão foi a resposta do Estado. Hoje, volta a ser a de sempre: violência e repressão — afirmou Puigemont. — Somos cidadãos europeus os que sofremos essas violações.

Grupos pró-independência e sindicatos da Catalunha convocaram uma greve geral na região espanhola para o dia 3 de outubro, informou o jornal "La Vanguardia" citando o chefe do grupo Omnium Cultural, Jordi Cuixart.

Pouco depois do fechamento das urnas disponibilizadas para o referendo, às 20h (horário local, 15h em Brasília) deste domingo, o presidente do governo espanhol, Mariano Rajoy, culpou Puigdemont pelos confrontos ocorridos entre policiais e manifestantes nos centros de votação, e anunciou que comparecerá voluntariamente ao Congresso para debater o desafio independentista.

O Sistema Médico Emergencial da Catalunha informou que 844 pessoas solicitaram assistência, sendo apenas 335 na capital Barcelona. Segundo o Ministério do Interior, 19 policiais nacionais e 14 guardas civis receberam tratamento médico por causa de ferimentos nos confrontos nos postos de votação.

Segundo Rajoy, todos partidos com representação parlamentar serão convocados “para afrontar juntos as consequências da consulta e abrir um diálogo político”. Em coletiva de impensa, Rajoy disse que direitos fundamentais foram vulnerados com a realização do referendo. Segundo ele, a maioria do povo catalão não quis participar do processo, que “só serviu para aumentar a divisão, confrontar cidadãos e provocar situações indesejadas”.

— Fizemos o que tínhamos que fazer. Hoje não houve um referendo de autodeterminação na Catalunha. Nosso Estado de Direito mantém sua vigência. (...) Não assistimos a nenhum tipo de consulta, mas uma mera encenação. — declarou Rajoy. — Vimos comportamentos que repugnam qualquer democrata: doutrinamento de crianças, assédio a juízes e jornalistas. Os responsáveis por esses atos, pelos que aconteceram hoje e pelos que nos trouxeram até aqui, são o que promoveram a ruptura da legalidade e da convivência. Não busquem mais culpados, não há.

Marcada pela repressão policial, 336 seções eleitorais foram interditadas pelas forças de segurança espanholas, informou o porta-voz do governo regional catalão, Jordi Turull. Nas ruas, centenas de catalães pediam a renúncia de Rajoy por permitir tamanha violência por parte da polícia.

A Polícia Nacional e a Guarda Civil interferiram em diversos colégios em toda região para recolher urnas e cédulas e impedir a realização do referendo. Durante a ação em alguns pontos de votação, segundo testemunhas, a polícia desferiu balas de borracha contra manifestantes a favor da independência. Ao menos duas pessoas se feriram gravemente: um homem que levou bala de borracha no olho e outro que sofreu um enfarte no meio da confusão.

Rajoy agradeceu à ação de “firmeza e serenidade” da polícia durante o domingo. O presidente do governo disse que as autoridades catalãs “tiveram muitas oportunidades para abandonar seu empenhol ilegal”, mas indicou que não quiseram fazê-lo, sem escutar a Espanha. Rajoy disse que espera continuar recebendo apoio dos partidos que defendem a Constituição.

— Esperamos que façam agora, e não insistam no erro. Que renunciem a dar novos passos em um caminho que não leva a lugar algum.

Puigdemont denunciou “o uso injustificado, irracional e irresponsável da violência por parte do Estado espanhol”. Ele culpou o governo central pelos atos violentos registrados neste domingo. Jordi Turull afirmou que o governo espanhol responderá perante os tribunais internacionais pela violência policial.

— O que a polícia está fazendo é um escândalo real, uma selvageria. O Estado espanhol está em uma situaçao muito difícil perante ao mundo. O que a polícia está fazendo é uma vergonha internacional — afirmou o porta-voz catalão. — O Estado espanhol ficou muito comprometido e acabará respondendo aos tribunais internacionais.

INVESTIGAÇÃO À POLÍCIA CATALÃ

O Tribunal Superior de Justiça da Catalunha (TSJC) disse no domingo que os tribunais da região receberam várias queixas contra a polícia local, conhecida como “Mossos d’Esquadra”, por não ter fechado as seções de votação apesar da ordem judicial que proibiu a realização do referendo para independência da Catalunha. De acordo com o TSJC, sete juizados investigam a ação dos Mossos.

O tribunal disse em uma declaração que as queixas eram contra a polícia catalã por inatividade em locais abertos ilegalmente para a votação. O tribunal disse que pediu aos Mossos mais informações sobre as queixas.

As organizações representativas das forças de segurança do Estado anunciaram, neste domingo, que tomarão providências legais contra o chefe dos Mossos, Josep Lluis Trapero. Os sindicatos afirmam que os Mossos agiram com "vergonhosa leveza" para reprimir a realização do referendo de independência da Catalunha. No documento, as entidades acusam os Mossos de dificultar o trabalho da Polícia Nacional e da Guarda Civil, "atuando com claríssima falta de apego às ordens judiciais".

"Não só evitaram cumprir a ordem do Tribunal Superior de Justiça da Catalunha, como também atuaram com vergonhosa leveza, quando não obstrucionismo, e, inclusive, manipulando dados sobre centros de votação", disse o comunicado divulgado por cinco entidades.

MUDANÇAS DE ÚLTIMA HORA NO REFERENDO

Antes do início da votação, o governo catalão anunciou mudanças de última hora, de modo a tentar garantir a continuidade do referendo. Turull informou aos catalãos que seria possível votar em qualquer seção graças a uma sistema informáticos de votação universal.

A Guarda Civil bloqueou parte do aplicativo que dava acesso à votação e limitou o acesso à internet em vários postos de votação. Com isso, em alguns colégios eleitorais os mesários tiveram que anotar à mão os dados dos eleitores.

Muitos postos de votação também não tinham envelopes para colocar as cédulas dos votantes. Sem os envelopes, emergiram acusações de que o governo catalão tentará manipular o número de votos computados. Para driblar esses problemas, o governo catalão criou um site para que os eleitores pudesse votar pela internet.

Fonte: O Globo / Com agências internacionais