Vice-presidente do ADURN Gilka Pimentel: "A corrupção no Brasil é sistêmica"

11/07/2016

Por: José Pinto Junior
Foto: Aldemir Neto
Qual sua opinião sobre o processo de impeachment de Dilma Rousseff que está em andamento? E para a sra. o ponto principal que as pessoas parecem se indignar é mesmo a questão da corrupção.
Pois é, a corrupção é uma bandeira da qual eu não conheço ninguém que possa fazer a defesa, ou seja, ser a favor da corrupção. O problema é que a corrupção no Brasil é sistêmica, podemos dizer que vem desde os primórdios da República ou do Império. A questão é que ela [a corrupção] foi usada para desencadear uma mobilização de forma enganosa para a população, em que as pessoas estavam indo às ruas contra a corrupção, e quando a gente começa a observar que o debate sobre a corrupção, ele não tem consistência, na medida em que a gente vê atores, como os deputados, a própria composição do ministério do presidente Temer, todos envolvidos na Lava-Jato.
Então, o combate a corrupção é legítimo, mas precisa ser para todos, ele não pode ser para um partido, para um político, e essa é a questão de fundo, porque se de fato estivéssemos preocupados com  corrupção, hoje o Estado brasileiro tem mecanismos de punição, agora não pode ser seletiva.
 
A senhora acha que é seletiva hoje?
Não só eu que acho isso. Quem acompanha toda a Lava-Jato, a própria posição do STF, dos procuradores, os vídeos lançados sem controle, os áudios expostos para a mídia, quem acompanha de perto o processo desde quando foi desencadeado, no primeiro momento, vê os esforços de eliminar qualquer possibilidade de que os outros partidos, como o PSDB - que tem contingente de políticos, encarnados na figura do Aécio Neves - vê como eles foram blindados, tanto é que quando se abre a lista da Odebrecht, está lá uma lista imensa de deputados, desde o PMDB até o PSDB, e isso não apareceu. Isso para citar a lista da Odebrecht, para citar também as próprias delações premiadas quando os delatores incriminam o Fernando Henrique, Aécio, disso tem matéria publicada por blogs, por jornalistas, a imprensa internacional, que inclusive, diferente da nossa imprensa, já que a gente não pode dizer que a imprensa internacional é de um partido “x”, inclusive uma imprensa conservadora, jornais como o Le Monde, The Guardian, que são jornais que não são nem de esquerda, vamos dizer assim, eles apontam o que está acontecendo no Brasil, e chamam claramente de golpe, enquanto a mídia brasileira esconde as manifestações que estão ocorrendo no país inteiro, onde as mulheres e os estudantes tem sido protagonistas importantes, desde que o governo interino golpista assumiu.
 
Mas nada de panelaço, não é?
Pois é. Cadê o panelaço? Cadê as pessoas que foram às ruas?
 
A senhora está falando dessa questão da corrupção, e quando falamos parece que é uma coisa exclusiva da política e dos políticos, mas não é bem assim, é?
Pois é. A corrupção está no “jeitinho brasileiro”, ela está na hora que eu sou autuada no trânsito e faço uma “conversinha”, dou uma “gorjeta”, está na fila do banco quando eu busco uma forma de burlar a regra, ela está no cotidiano. Então, corruptos não são só aqueles que tiram dinheiro público, são as nossos atos também.
 
Professora, eu pergunto porque não tem nenhum deputado ou senador que não tenha sido, nós eleitores que lá o colocamos. Então, ali está um extrato do que é a sociedade, imagino...
Pois é. E aí está a responsabilidade do cidadão, a nossa, de nas eleições municipais, para vereadores, prefeitos, para o governo, os deputados federais, e a gente mudar o perfil do Congresso Nacional. Não é possível a gente ter um Congresso com esse perfil. O Brasil, a população está ameaçada, as suas conquistas, esses que foram eleitos e muitos - pela forma de como o sistema político foi organizado, alguns tiveram votação ínfima - ali no Congresso Nacional você tem poucos que, de fato, alcançaram o número da votação.