Paulo Markun: “A história política do nosso país é muito rica"

04/12/2014


O jornalista e escritor Paulo Markun participou do programa Conexão Potiguar e em entrevista ao jornalista José Pinto Jr. falou sobre o  seu mais novo livro “Brado Retumbante”, lançado em dois volumes: “Na lei ou na marra” e “Farol alto sobre as Diretas”. Falou também sobre a história política do país e sobre as eleições. Confira:

 

Como surgiu a ideia de escrever esse que seria um livro, mas se transformou em dois volumes?
Isso começou em 1986, o Brasil ainda não tinha nem Constituição aprovada, não tinha elegido nenhum presidente pelo voto direto. Eu fiz pela Universidade de Campinas, uma série de debates com personalidades que tinham vivido esse momentos da história do Brasil, Leonel Brizola, Mário Covas, Fernando Henrique Cardoso, Fernando Gabeira, e outros,  que ali contavam um pouco da sua vida e  relembravam momentos da história do Brasil. Surgiu ali a ideia de contar essa história contemporânea, estava se desenhando ali um desenlace que veio a acontecer em 1989 com a primeira eleição direta para  presidente.  Acabei abandonando o projeto e retomei em 2010 quando deixei a presidência da TV Cultura, passei os últimos 4 anos trabalhando nisso. São dois volumes porque eu fui até 1922 pra tentar entender porque  aqui no Brasil quando as coisas não vão do jeito que um determinado grupo pretende, se tenta mudar isso a força. Por isso o título “Na lei e na marra”, pois tem a ver com as ligas camponesas e com toda luta pela reforma agrária,  mas que vale pra muitas outras coisas.
 
A reforma agrária parece um tabu, não acontece nem na marra.
Pois é, até hoje, de certa forma ela já perdeu o sentido. A medida que a sociedade já mudou tanto que fica difícil sustentar pequenos  produtores rurais. Mas o fato é que era uma cosia elementar, que  virou tabu. Outras coisas também no Brasil são tabus como por exemplo a regulamentação de remessa de lucros, que teve por trás da própria queda do João Goulart; a aceitação da eleição presidencial em vários momentos da história, os grupos q perderam diziam que não valia a regra, chegou a se dizer isso com Juscelino em 1955.  Esses grupos devem ter um pensamento “o candidato não deve ser eleito, se for eleito não deve assumir, se assumir não deve governar”. O livro conta um pouco dessa história, mas com uma linguagem jornalística, são historinhas amarradas umas nas outras que permitem uma leitura mais leve.
 
Nesse sentido o exercício do jornalismo que você faz desde os anos 70 foi fundamental, como a argamassa para juntar esses tijolos?
Certamente, junto com certo rigor histórico, pois é muito difícil você selecionar episódios, momentos do país que podem justificar ou explicar o  processo.
 
Com toda sua experiência, o resultado das eleições deste ano motivou protestos e até pedido de intervenção militar. Você  viveu a realidade, foi preso e torturado pela ditadura, qual o seu olhar sobre isso?
Eles têm todo direito de protestar, isso é a democracia. O problema é que se eles ganhassem a batalha da opinião pública e a intervenção militar acontecer algum dia, na ditadura ninguém pode pedir a democracia. Essa é a diferença elementar, a juventude como não viveu aquele processo, imagina que não havia corrupção, bandidos na rua, nem crimes, mas o que não tinha era notícia dessas coisas devido a censura. Havia muito provavelmente mais corrupção do que há hoje. Eu que fui repórter e editor durante os anos da ditadura, lembro que muitas notícias nós recebíamos na redação pela Polícia Federal dizendo  “ é proibido falar da morte de fulano, da prisão de beltrano” . Essa diferença que a democracia proporciona acho que compensa os problemas da democracia, que são muito grandes, mas que de alguma maneira abrem uma possibilidade de solução que não seja a da força.
 
Se olharmos para a história do Brasil, desde a saída da Monarquia para a República foi por um golpe. Recentemente nas eleições para presidente,  surpreendentemente o partido  que já governou duas vezes pela mesma regra de urna eletrônica, o PSDB, colocou em dúvida esse processo, pedindo recontagem de votos. Qual a sua análise sobre essa questão?
Foi uma tentativa mal sucedida de tentar manter o processo eleitoral depois da eleição. Acho super salutar que  tenha oposição no Brasil.  Sobre isso, o  importante  é que as principais lideranças do partido voltaram atrás, e reconheceram o resultado eleitoral. Cumprir as normas legais é fundamental, e isso implica num aprendizado grande e demorado tanto para o governo quanto para a oposição.

Fonte: Potiguar Notícias