Bia Crispim

29/04/2022

 

SOBRE AUTOSSABOTAGEM
 
 
Surpresa! Foi assim que me senti quando recebi a notícia de que Martiniana havia recebido uma menção honrosa concedida pelo edital de premiação e seleção de obras literárias da editora CJA, editora genuinamente norte-rio-grandense. Martiniana, nome da minha avó materna, foi o pseudônimo com o qual concorri naquele edital na categoria de contos. Era maio de 2019 quando recebi a notícia.
 
Porém, a surpresa deu lugar à angústia e ao medo que se seguiram após o resultado. Acreditava que ao descobrirem que por trás dos contos e do pseudônimo Martiniana estava uma mulher Trans/Travesti o sonho e a possibilidade de ter um livro publicado cairia por terra.
 
Foi nesse contexto que comecei a me autossabotar. Como isso aconteceu? Vou contar... Outros contos deveriam ser acrescidos àqueles dez primeiros ganhadores da menção honrosa do edital. Porém, ao em vez de enviá-los, eu protelei a entrega. “E por que você faria isso?” (Talvez essa seja a pergunta que paira sobre sua cabeça) Pelo medo. Medo de ser rejeitada, medo de ser criticada, inclusive pela própria comunidade LGBTQIAPN+ por não escrever contos sobre pessoas Trans.
 
Esse medo se materializou na forma de uma protelação constante, de uma inércia diante da situação de enviar ou não o livro com os outros quatro contos adicionais. Cheguei a ligar e conversar com minha querida Ana Cláudia Trigueiro, autora potiguar e minha madrinha literária que tem, inclusive, livros seus publicados por essa mesma editora, CJA. Meu medo, minhas angústias, haviam se transformado em pânico e a pandemia coroou esse processo feito cereja sobre um Sundae. Tudo isso fez com que deixasse o sonho em banho Maria ou fadado ao arquivamento.
 
Mas vejam vocês! Surpresa só é boa se se repete. E mais uma vez fui surpreendida pela editora CJA cobrando o livro, argumentando que eu não poderia deixar de publicá-lo. Eu seria a primeira mulher Trans/Travesti a publicar um livro de ficção no Rio Grande do Norte, acolhida por uma editora potiguar. O fato de ser Trans/Travesti não seria uma barreira para que meu livro fosse publicado, pelo contrário... O entusiasmo com que eu estava sendo acolhida pela editora era tão bom que eu deixei me tomar por ele.
 
Então eu pensei: Como perder essa oportunidade de visibilidade? Como me negar a ocupar esse lugar? Como não me tornar uma representatividade para tantas outras pessoas Trans que assim como eu também têm suas histórias (ficcionais ou reais demais) para contar, mas que também assim como eu, alimentam o medo da rejeição?
 
Maio está aí, e que outra surpresa maravilhosa... Apesar do medo, do frio na barriga e da autossabotagem, finalmente tenho a felicidade de anunciar o lançamento do meu livro, do meu primeiro livro, do livro de fantasias de uma mulher Trans/Travesti que convida vocês, queridas/es/os leitoras/es, a conhecer um horizonte onde tem chuva fiando, lugar de magia e de seres fantásticos, onde gente vira bicho, onde bicho vira gente, onde a fantasia, as transformações, as transfigurações são e estão (n)os contos como surpresas necessárias para voltarmos a sonhar sem reservas.
 
Deixo a reflexão acerca das nossas autossabotagens diárias, das nossas protelações, das nossas inércias diante das situações que nos parecem desafiadoras demais, situações em que parecem impossíveis nos caber, momentos de nossas vidas que não são as coisas, nem as pessoas, nem o tempo que nos paralisam, mas sim, nós mesmos/as/es. Os monstros que nos paralisam. Que sejamos capazes de exorcizá-los e de desafiarmos nós mesmos/as/es o tempo todo de todo dia. 
 
Deixo também meus agradecimentos à editora CJA, uma nova casa; a Cleudivan Jânio, meu editor e entusiasta; a Ana Cláudia Trigueiro, escritora e minha madrinha literária; a Ana Paula Campos, amiga e grande incentivadora; às pessoas com quem a amizade se fez um elo; a minha família, por todo amor, acolhimento e estímulo; e a vocês que me acompanham nessa coluna todas as sextas-feiras.
Obrigada por me encherem de sonhos, me alimentarem de esperanças e por não desistirem de mim!