Bia Crispim

22/04/2022

 

POR QUE A HETEROSSEXUALIDADE TEM MEDO DAS DISSIDÊNCIAS DE GÊNERO? 

 

Vou iniciar a coluna de hoje responde a essa questão de três formas:

  1. Por abalar a necessidade de hegemonia e controle que ela exerce sobre as demais identidades;
  2. Por saber que a concretização e a legitimação dessas dissidências desmentem o seu discurso naturalista/biológico, sexista, patriarcal, machista, misógino, LGBTfóbico...
  3. Por confirmar que seus alicerces sempre foram frágeis e validados graças às imposições (sobretudo por meios violentos).

Por isso os discursos inflamados em nome da biologia, dos cromossomos, dos fenótipos, da família, dos costumes, do conservadorismo e da religião. O “pacto narcísico da branquitude” (termo cunhado por Cida Bento) não se mantem como escudo protetor dessa branquitude somente dentro do espectro racial, ele também atravessa as camadas onde o poder desse grupo se consolida. E, portanto, atinge, em cheio, as questões de gênero e suas dissidências. A heterossexualidade tem medo de perder esse controle e um pacto de defesa/manutenção se faz necessário para que ela não seja questionada. Tarde demais!

As Transidentidades, a comunidade LGBTQIAPN+, as pessoas que questionam o binarismo biológico, aqueles e aquelas pesquisadores/as que estudam os indivíduos em sociedade e suas identidades, os/as que fazem estudos no campo da cultura, da antropologia e da história, os/as que se debruçam sobre a pós-modernidade, as ciências psi... Enfim, todas essas pessoas (leigas, universitárias, pesquisadoras, curiosas ou apenas ouvintes ou espectadoras) acompanham um movimento aterrorizante para a heterossexualidade: a constatação da fragilidade de sua autoproclamada exclusividade no que se refere a SER NO MUNDO.

Ser dissidente é dizer à heterossexualidade que outras identidades são possíveis, é discutir inclusive as relações de poder dentro de sua própria categoria no que diz respeito ao poder que um gênero exerce sobre o outro (homens superiores às mulheres, por exemplo); é sacudir as bases com as quais nossa sociedade foi alicerçada, as quais nos foram vendidas (ou empurradas goela abaixo) como únicas e aceitáveis verdades. Ser dissidente da heterossexualidade é mostrar para o mundo que somos mais possíveis do que nos disseram que poderíamos ser. Ser dissidente é exercer verdadeiramente nossas idiossincrasias, nossas individualidades, nossas pluralidades. É deixarmos de ser cópias de um único modelo. Modelo esse que parece não aceitar a mudança dos tempos.

E, portanto, nos ataca de todas as formas: com discursos de ódio, com perseguição e questionamentos acerca dos nossos direitos, com apelo religioso e nossa demonização, com a não aceitação de quem somos, por meio de proibições, fechando-nos portas, bloqueando nossas oportunidades. Construindo narrativas em que aparecemos como pervertidas/es/os, perigosas/es/os para a sociedade, para a manutenção da família e inclusive, nos responsabilizando pelo fim da humanidade. (Dá até vontade de rir...)

Por que a vontade de rir de um assunto tão sério? Porque o próprio discurso da heterossexualidade é prova da fragilidade dessa mesma heterossexualidade. Se vamos extinguir a humanidade porque “homem com homem ou mulher com mulher não podem ter filhos”, fica exposto nas entrelinhas que as dissidências são tão poderosas que serão capazes de “contaminar” todo mundo e isso faria com que todos os héteros um dia seriam LGBTQIAPN+. E como se não houvessem outras formas de trazer pessoas ao mundo além do sexo tradicional. Aloooooôôô... Existem clínicas de fertilização, homens Trans podem engravidar de mulheres Trans... Enfim... Isso daria outra discursão.

Por que a vontade de rir de um assunto tão sério? Porque não será por que (adoro os porquês) um menino cis/héterose se depara com um casal gay que ele será automaticamente gay, não é por que uma menina cis/hétero conhece um homem Trans que ela vai querer transicionar também. Não é por que vemos outras pessoas diferentes da “norma” que elas não sejam legítimas, possíveis, reais e capazes de ser quem e o que elas quiserem ser.

Voltando à pergunta que intitula a coluna dessa semana – POR QUE A HETEROSSEXUALIDADE TEM MEDO DAS DISSIDÊNCIAS DE GÊNERO? –  deixo a reflexão de que o que se passa com a heterossexualidade e todas as suas formas de ataque e violência a essas dissidências, aos movimentos de mulheres cis ou Trans é uma reação de todo aquele que (parafraseando versos da música “Viva la vida” da banda inglesa Coldplay, em uma tradução livre) descobriu que seus castelos eram sustentados sobre pilares de sal, e pilares de areia. Deixo a dica e o link pra curtirem a música, que por sinal, é uma das minhas preferidas.

https://www.youtube.com/watch?v=dvgZkm1xWPE