Eliade Pimentel

18/04/2022

 

Jampa é uma pedra no nosso caminho 

 

Dois bate e volta a João Pessoa foram o suficiente para eu me sentir em débito com a capital paraibana, que sempre me acolheu tão bem. Por conta de ter uma casa em Baía Formosa, cuja distância para as capitais potiguar e paraibana são praticamente iguais, tenho uma relação muito forte de amizade com pessoas do estado vizinho, que eu comecei a frequentar ainda na juventude.

Antes dos 18 anos, ouvia falar bastante do Fenart, Festival Nacional de Artes, um evento que sempre deu o que falar, por ser tão representativo, no famoso Espaço Cultural que eu só tive a oportunidade de conhecer quando já era maior de idade, recém-ingressa no curso de comunicação da UFRN. Fui ao cinema, para a sessão de arte, com uma pessoa muito especial, que eu havia conhecido em Recife, no primeiro Enecom (Encontro Nacional de Estudantes de Comunicação) da minha vida de universitária. Assistimos Asas do Desejo, de Wim Wenders.

Naquela ocasião, não cheguei ir à praia.  Passei pela orla, mas não senti nenhuma necessidade de curtir o litoral. Minha sede era de vivenciar aquilo que não tínhamos aqui, uma vida cultural mais agitada, mais ampla, com muito mais produtos de qualidade para pessoas de todas as idades. Uma sessão de arte num final de semana. Acredito que no início dos anos 90, quando nossos cinemas no centro da cidade agonizavam, e as salas do shopping só passavam filmes comerciais, ter acesso a uma sessão especial de cinema foi um verdadeiro presente.

Voltei algumas vezes depois a João Pessoa. Sempre para eventos culturais, como uma ocasião em que fui cobrir um festival de música, promovido pelo Sesc-PB, e eu estagiava no Sesc-RN, e dei um jeitinho para ir. Fiquei hospedada em Cabo Branco, no hotel da instituição.  Foi maravilhoso, conheci muita gente bacana. O músico paraibano Escurinho ficou em primeiro lugar. Dancei, me diverti e me encantei ainda mais com o povo vizinho. Voltei com uma sensação muito boa. Com a alma lavada, o espírito renovado.

Anos depois, conheci Baía Formosa e minha relação com o povo paraibano aumentou ainda mais. É incrível como são mais receptivos e mais abertos do que os veranistas potiguares que por lá aportaram desde os anos 70. Sinto o gosto da Paraíba por ter fortes amizades, pessoas que me acolhem e me fazem sentir a boa energia que vem de lá, do lado de lá do rio Guaju, o rio que divide os dois estados, na nossa linda praia do Sagi. E assim, ao longo dos anos, fui construindo o que considero uma ponte afetiva com a Paraíba.

Falando assim, parece que Natal não tem nada a oferecer. Tem e sempre me ofertou. A grande diferença, seja com relação ao entretenimento, à vida cultural, ou à orla, que é nosso maior calo (quem nunca suspirou de inveja, sobre o calçadão das praias urbanas de João Pessoa?), ao meu ver é a sensação de pertencimento. As pessoas amam o que têm. Aqui, temos a mania de achar bom o que é dos outros. E assim, ficamos sempre achando que falta alguma coisa.

Talvez o que nos falte seja exatamente o compromisso com as nossas cidades, com o nosso estado, com as nossas praias, com as nossas matas. Falta a nós mais empenho para cobrar dos nossos políticos o que nos falta. Aqui, nos contentamos com o mesmo cardápio de atrações culturais todos os anos. Vamos ao Carnaval, ao São João, às festividades do final do ano. A gente não reclama quando o poder público não prioriza os artistas potiguares.

 A gente engole em seco tudo o que vem de fora. É isso. João Pessoa é uma pedra no nosso caminho por isso. Até as estradas da Paraíba parecem ser melhores do que as nossas. Pero no. O que é melhor e maior é o amor. Amemos o nosso Rio Grande do Norte. Cobremos melhorias ao nosso estado, aos nossos municípios. Só assim, deixaremos de achar que a grama da nossa vizinha é mais verdinha. Aqui é tudo Nordeste e nossa região é linda, rica de tudo o que precisamos para ser felizes. Só precisamos ter consciência disso.