Bia Crispim

15/04/2022

 

DE QUE LADO VOCÊ ESTÁ?

 

Se você me acompanha toda sexta nessa coluna, deve estar fresquinha na sua memória a notícia que trouxe, de maneira comemorativa, mas também reflexiva sobre a inserção de mulheres Trans e Travestis na aplicabilidade da Lei Maria da Penha (Lei 11.340/2006). Mas, como diz o ditado: “Alegria de pobre dura pouco”, uma petição, enviada por um grupo de radfems – feministas radicais – ao Senado Federal pede a substituição do termo GÊNERO, contido na lei para a expressão “SEXO BIOLÓGICO FEMININO”.

Qual é o problema nessa mudança?

Primeiramente e de forma retrógrada, antifeminista e sexista, o SER MULHER seria reduzido à condição genital do indivíduo, ou seja, ao fato de ter nascido com uma vulva. Segundo, por que impede a lei de proteger de violência doméstica as mulheres Trans e Travestis. Terceiro, por que é um retrocesso a essa conquista (recém-alcançada, diga-se de passagem). Conquista essa que ainda nem se viu aplicar de forma efetiva, protegendo mulheres Trans e Travestis das inúmeras violências sofridas (inicialmente dentro de suas casas, por seus familiares) pelas quais passam mulheres Trans e Travestis.

O que provoca mais indignação e inquietação é que esse tipo de pedido antifeminista e sexista parte de um grupo de mulheres que se dizem feministas. Ãnnnn? Como mulheres que lutam para que mulheres tenham direitos garantidos (as feministas fazem isso) se posicionam contra os direitos recém-garantidos de mulheres?! Como mulheres assumem esse tipo de discurso cisheterossexista a ponto de se reduzir a uma genitália? Como não reconhecer as mulheridades e as feminilidades que existem para além do genital, para além do biológico?

Mesmo em um movimento tão plural e tão grande quanto o movimento feminista há seus retrocessos. E esse grupo de mulheres é um deles. Falta-lhes empatia? Sororidade? Capacidade de se ver e ver outras mulheres para além de um corpo? Não veem que apenas repetem um discurso masculino, patriarcal e misógino? Não percebem que com isso elas alimentam a classificação e hierarquização de mulheres? Gostaria de lembrar que nenhuma de nós, mulheres cis ou Trans estamos a salvo desse pensamento genitalizador, binarista e excludente com que mulheres são vistas e tratadas na e pela sociedade patriarcal e falocêntrica em que vivemos.

Por isso que mulheres devem se unir a outras mulheres, a todas as mulheres. Juntas seremos capazes de derrubar esses discursos, juntas seremos capazes de enfrentar as violências as quais somos submetidas diariamente em maior ou menor grau. Juntas poderemos peitar essa sociedade que nos vê menores e sub-humanas, como propriedades, como menos inteligentes, como as fracas, as incapazes, as que devem ficar enfiadas dentro de casa, as que servem para alimentar os fetiches e as perversões masculinas.

Não é criando divisões, impedindo que outras mulheres sejam as mulheres que são e que performam ser. Não é reduzindo a mulher a um único corpo possível. Não é criando movimentos separatistas entre mulheres. Não é promovendo discurso de ódio contra outras mulheres. Não é impedindo que certos direitos cheguem até nós, mulheres Trans e Travestis, que mulheres cis serão mais respeitadas e conquistarão mais direitos.

Outra coisa que me deixa estarrecida é ver que essas radfems, as mesmas que estão pedindo a substituição do termo gênero para um que classifica mulheres apenas por questões de anatomia, já se posicionaram de forma persecutória contra outras questões envolvendo direitos de mulheres Trans e Travestis. Elas já moveram ações relacionadas ao sistema prisional, a fim de impedir que unidades prisionais femininas de receberem mulheres Trans/Travestis. Já fizeram mobilizações nas redes contra Trans nos esportes, na política, contra o direito de usar um banheiro de acordo com o gênero... Mobilizaram-se de forma odiosa e feroz contra pais de pessoas Trans e Travestis, contra médicos, artistas, ou qualquer outro apoiador da causa Trans/Travesti. Veja só!!!

Se são feministas?????!!!!! Tenho minhas dúvidas. Parecem mais animais ferozes treinados por um homem branco cis hétero cristão de bem machista conservador que toma viagra usa prótese peniana arrota picanha com leite condensado e que troca de vulva como quem troca de roupa, afinal, é ele quem apregoa que SER MULHER é ter b*c*t* e se tudo é igual, qualquer uma serve. Não é mesmo?!

Afinal, você radfem, de que lado você está?