Bia Crispim

18/03/2022

 

VOU JOGAR MINHA FUTURA DENTADURA EM QUEM ME CHAMAR DE “TRAVECO”

A questão não é só envelhecer, é ter o direito de envelhecer em uma sociedade transfóbica, em uma sociedade que insiste em dizer que não existimos, que somos fakes, que somos cópias malfeitas dos seres autodeclarados perfeitos. Ontem saí das estatísticas que limitam a vida de uma pessoa Trans no Brasil aos seus 35 anos. Ultrapassei 10 anos. Venci o “cistema” 10 vezes, quero vencê-lo mais 40, mais 50, mais 60... Já pensou?! Uma Travesti centenária?! 

 

Parafraseio Keyla Simpson, presidenta da ANTRA – Associação Nacional de Travestis e Transexuais – que diz que a vingança de uma Travesti é ficar velha para acrescentar que envelhecer, para além de ser uma vingança, é um estandarte contra todos os anulamentos, as invisibilidades, as exclusões, as violências e os aniquilamentos de nossas existências, é uma das nossas vitórias.

 

Cada novo ano uma nova vitória. Cada novo ciclo em que permanecemos, resistimos, enfrentamos, lutamos e conquistamos mistura a vingança e a vitória. Não falo de vingança no sentido de dar o troco, falo da vingança como acerto de contas. Querem-nos mortas, esbanjamos vida. Pagamos o mal com o bem, o desejo de matar com o desejo de viver. Acertamos contas com a moeda que temos: o respeito, a compreensão da pluralidade; pagamos com nossa alegria, com nossa inteligência, com nossas dissidências e possibilidades. Pagamos com nossa liberdade (que também é nossa prisão.)

 

Mas, infelizmente, muitas vezes, o “cistema” não aceita nossas moedas, preferem, sangue, asfixia, corpos mutilados ou desfigurados... Preferem o anúncio de nossas mortes. Matam-nos, “suicidam-nos” (porque retiram tudo o que temos para suportamos viver e pressionades pelo não-reconhecimento de nossas humanidades, sucumbimos – deixo aqui minha reverência a POPO VAZ – homem Trans – que nos deixou essa semana).

 

Sou uma vingadora. Eu acerto contas com os preconceitos diários, assim como muitas pessoas Trans e Travestis com as quais tenho o prazer de conhecer e conviver. Vingamo-nos trabalhando, ocupando espaços, nos tornando possíveis e visíveis a olhos nus, em qualquer hora do dia ou da noite. Servimos cafés, arrumamos casa, programamos softwears, empreendemos, fazemos barba, cabelo, bigode e unha, massageamos corpos e egos, professoramos, advogamos, cuidamos de idosos e doentes, nos prostituímos, vendemos produtos de catálogos, atendemos em lojas, somos caixa de supermercado, conferimos mercadoria, somos chefe de RH, legislamos...

 

Eis nossa vingança: existimos; estamos vivas e estamos ocupando nossos espaços de direito; construímo-nos cidadãos e cidadãs; educamos para uma sociedade plural, diversa e respeitosa; lutamos para que 35 anos seja somente o começo da longa vida de cada uma de nós, pessoas Trans e Travestis.

 

A coluna de hoje é sobre envelhecer; é sobre quebrar barreiras; é sobre segurar a onda, peitar e não arredar o pé; é sobre permanência; é sobre vitórias, ocupações, visibilidades  e representatividades; é sobre possibilidades do ser de ser; é sobre as dissidências de corpos e espíritos; é sobre liberdade; é sobre a conquista diária de humanidade e a chance que temos em ensinar/aprender a amar esse humano que habita em cada um de nós; é sobre sobrevivência, é sobre fazer 45 anos em um país que me quis morta aos 35.

 

Ontem, 17 de março de 2022, eu ultrapassei 10 anos da fatídica estatística que tanto nos amedronta. Venci o “cistema” 10 vezes e reafirmo, quero vencê-lo mais 40, mais 50, mais 60... E se você, que me lê, nunca pensou em ver uma Travesti centenária, vá se acostumando... Estamos aqui lutando para que o direito de envelhecer, de envelhecer com dignidade também seja nosso. (Ainda vou jogar minha futura dentadura em quem me chamar de traveco! HAHAHAHAHAHAHAHAHA...)

 

Felizes e prósperos anos nos aguardam se Deus quiser! 

Por fim, feliz aniversário para mim! 

“Parabéns/ Parabéns/ Hoje é o seu dia/ Que dia mais feliz

Parabéns/ Parabéns/ Cante novamente/ Que a gente pede bis/

É pique, é pique/ É pique, é pique, é pique

É hora, é hora/ É hora, é hora, é hora

Rá ti bum”