Bia Crispim

11/02/2022

 

LGBT’s E FAMÍLIAS AJUSTADAS

Já ouvimos o atual ministro da educação (escrito com letras minúsculas, mesmo, pra representar a pequenez desse senhor) falar que pessoas LGBTs são frutos de famílias desajustadas. Mas logicamente que esse argumento está na cabeça do ministro e de muito “cidadão de bem” que esconde seus podres em baixo de seus tapetes de hipocrisia.

Quando o ministro diz isso, ele não só ataca (e julga) LGBTs, como também suas famílias, generalizando e disseminando uma ideia falaciosa, preconceituosa e, pra não pegar mais pesado, ridícula. Sim, ele e seu pensamento são ridículos. 

Para um pastor, ele deveria ter o mínimo de conhecimento e discernimento sobre as coisas e não sair pregando suas opiniões e julgamentos a torto e a direito. Afinal, parece que ele desconhece a própria Bíblia. Será que ele esqueceu esses versículos? E olhe que tem muito mais no livro sagrado dos cristãos. Vê só...

“Portanto, és inescusável quando julgas, ó homem, quem quer que sejas, porque te condenas a ti mesmo naquilo em que julgas a outro; pois tu, que julgas, fazes o mesmo.” (Romanos 2:1); “Não julgueis, para que não sejais julgados.” (Mateus 7:1); “Não julgueis, e não sereis julgados; não condeneis, e não sereis condenados; soltai, e soltar-vos-ão.” (Lucas 6:37); “Há só um Legislador e um Juiz, que pode salvar e destruir. Tu, porém, quem és, que julgas a outrem?” (Tiago 4:12)... Quem és tu, ministrozinho? Nem lendo a Bíblia o senhor está mais?

Como disse antes, esse julgamento de desajustados (LGBTQIAPN+ e suas famílias) me incomoda demais, primeiro por que não vejo “desajuste” nenhum (além do permitido) na pessoa que sou. E não vejo desajuste nenhum na família da qual faço parte. Tenho pais cristãos/católicos praticantes, fui criada dentro de princípios de bondade, caridade, fraternidade e união, estudei em escolas de freiras (trabalhei também), vi minhas irmãs casarem-se na igreja, vi meus sobrinhos serem batizados, rezei terço, fui à missa e vi novenas ocorrerem em minha casa... 

Meu pai era carpinteiro, músico e comerciante, minha mãe, sempre professora e dona de casa. Então, como é que esse senhor vem dizer que eu sou quem sou por conta do desajuste da minha família... Eu sou fruto de uma família ajustada, viu! Então, vai catar coquinho, ministrozinho! O senhor nem sabe quem eu sou, muito menos que família maravilhosa eu tenho. O desajuste que vejo está na sua cabeça, nos seus preconceitos e talvez nos seus medos de ser uma pessoa livre. O que o senhor esconde atrás de seus preconceitos? Diz aí!? 

Se o ministro generaliza desajustes familiares com LGBTQIAPN+, ele me dá todo o direito de achar que por trás dessa postura moralista, julgadora e preconceituosa habita uma “bichooooona!” – como dizia um personagem de Jô Soares –, enrustida, infeliz e triste, muito triste. Mas achar isso não é julgá-lo de nada ruim, pois ser uma pessoa LGBTQIAPN+ não é ofensivo, não é feio, não é sinônimo de desajuste, não é criminoso e nem é vergonhoso. 

É antes de tudo, um grito de independência, uma quebra de grilhões, uma libertação de corpo e alma. Caso essa seja sua questão (ser uma bichona enrustida), ou a questão de quem pense igual ao pastor/ministro, libertem-se... Libertem-se do peso de estar julgando os outros porque vocês não puderam viver como quiseram; libertem-se dessas amarras sociais, desses julgamentos dos outros que só adoecem suas almas; libertem-se...

E pare(m) de dizer que LGBTs são frutos de famílias desajustadas. Foi justamente por ter uma família ajustada que eu, mesmo sendo um mulher Trans/Travesti consegui estudar, me formar, fazer concurso público, seleção para doutorado (e passar nesses últimos), me tornar escritora e ocupar alguns espaços com os quais sonhei. 

Essa família naturalizou minha existência, respeitou minhas idiossincrasias, deu-me subsídio familiar, emocional, financeiro... E o mais importante: apostou no meu sucesso, no meu futuro... Incentivaram-me, estimularam-me e comemoraram comigo, aliás, comemoram comigo, toda pequena vitória. 

LGBTs podem nascer em famílias ajustadas. Muitos LGBTs felizes e bem resolvidos nasceram em famílias ajustadas. LGBTs têm todo o direito do mundo de terem famílias ajustadas que promovam seu crescimento e apoiem suas decisões e se alegrem com suas conquistas. E, mesmo que sejam desajustadas... Não será isso que irá definir essas pessoas.

Afinal, seu ministro, família é quando gente que se ama se junta pra viver se amando, não é uma constelação de pessoas colocadas cada uma em lugar para desempenhar um único papel, não.

Família é amor! Sabe o que isso? Se o senhor fosse uma pessoa de boa índole, eu até te chamaria pra vir conhecer a família ajustada dessa Travesti aqui, mas...