Ana Paula Campos

26/01/2022

 

“E VOCÊ, QUE SE JULGA A NATA, CUIDADO PRA NÃO QUAIAR”

Inicio a reflexão de hoje com esta frase do intelectual e cantor Criolo. Toda vez que algumas pessoas falam comigo, imediatamente me lembro disso e me acabo, internamente, na risada. O motivo? Seus títulos de mestrado ou doutorado, ou nem isso. Alguns estão em formação, mas já carregam o rei na barriga. 

Antes de continuarmos, preciso fazer uma ressalva. Nas linhas que se seguem, não pretendo, de forma alguma, desmerecer minhas/meus colegas que fizeram ou fazem mestrado e doutorado. São pessoas que admiro e tenho grande respeito e consideração. Por favor, não generalizem minha fala. Estou me referindo a um grupo de pseudos intelectuais bem específico. Vocês não apresentam o comportamento que expressarei a seguir. 

Também preciso deixar escuro que acredito fortemente que a academia deve ser ocupada por corpos negros, indígenas e ciganos. É fundamental que ocupemos estes espaços para defender um contradiscurso e, principalmente, carregar nossos diplomas que são, na grande maioria das vezes, negados a nós pela falta de oportunidades de acesso e permanência nas universidades. Dito isto, sigamos.

O fato é que diversas vezes sou abordada por pessoas que fazem questão de deixar bem marcado que estão fazendo mestrado/doutorado, em uma tentativa inútil e até mesmo cômica de me diminuir. Elas buscam qualquer oportunidade que seja para encaixar frases que evidenciem sua condição. Eu realmente não sei dizer o que provoca a explosão de risos internos em mim: se a forçação de barra ou a crença de que vão conseguir me diminuir a partir disso. 

Como, geralmente, pessoas assim são haters dos nossos perfis, estou escrevendo para você, querida. Boa leitura! 

Veja bem, eu nem precisava estar aqui me justificando, e na verdade não estou. Espero que eu realmente domine a arte do deboche, para conseguir expressar com exatidão meu desprezo por você. 

Sou uma intelectual séria. Procuro me aprofundar em questões diversas desde a graduação, concluída em 2004. De lá para cá, tenho investido pesado em livros e cursos de formação com profissionais negres, indígenas e LGBT+. Pesado mesmo – meu organizador do Lattes anda ocupado comigo! Participei da seleção de mestrado várias vezes. Sempre obtendo uma nota elevada na prova escrita, mas o projeto... ah, o projeto. Ao que parece, meu discurso é pesado demais ou elas/eles; não têm interesse na minha pesquisa. Seja qual for a opção, acaba na mesma. 

Nós, pessoas negras, trazemos uma discussão contra-hegemônica –pausa para que você busque no Google o significado da expressão. Docentes de universidades ainda são, em sua maioria, pessoas brancas cis e, por conseguinte, não querem, de forma alguma, pessoas racializadas dizendo que tudo que eles defenderam a vida inteira não passa de uma falácia que as privilegia. 

Uma outro ponto que devemos desctacar, é que estes profissionais estão acostumadas/os a serem reconhecidas/os como deuses do mundo acadêmico. Você ouve e fala “amém”. Como nem cristã eu sou – pausa para que você pasme –, meus deuses estão longe de serem brancos. Então, durante as aulas, apresento um comportamento que pode ser chocante para vocês e revoltante para elas/eles: eu questiono; falo; rebato; argumento; desafio – sempre munida de intelectuais que posso jurar que nem você nem elas/es conhecem; mas quem vai admitir, não é mesmo?

Então desisti. Não vou passar a vida dando murro em ponta de faca, forçando entrar e nunca ser aceita. Julgo que tenho sido bem-sucedida nas minhas pesquisas autônomas. Tanto é verdade, que, com certa frequência, sou convidada por professoras/ers com consciência de raça e classe a dar aulas na mesma universidade que me rejeita. Fomos longe demais para você agora, né? Mas quem sabe a gente não se vê em alguma aula minha!

Faça um esforço. Tente pensar para além da bolha branca que te apresentaram. Vamos, você consegue... eu acho. 

Por falar em bolha branca, o que você está tentando me empurrar goela abaixo, não passa de alguns poucos livrinhos – ou textos isolados; já paguei disciplina como aluna especial, sei como funciona – de pessoas brancas. O que você acha que sabe, é um pseudo conhecimento defendido por uma burguesia branca para manter o status quo. 

Seja como for, você só conhece uma pequena parte do todo. Você pesquisou, limitada pelas lentes brancas, apenas sobre um tema específico. Sugiro que sente para ler o que vem a seguir: você não conhece quase nada sobre a pluriversalidade do universo. Eita, peguei pesado agora, né? Bom, pelo menos nisso, você e suas/seus orientadores concordam: minha escrita é pesada. 

Para finalizar, vou repetir uma expressão que uma grande doutoranda diz, sempre que esbarra com pessoas como você: é uma corrida de saco, é? Eu estou pesquisando para me manter viva e fortalecer a minha comunidade. E seus títulos, servem para que mesmo?