Andreia Braz

25/01/2022

 

Um sertanejo que ganhou o mundo

 

Prepare o seu coração, pras coisas que eu vou contar
Eu venho lá do sertão, eu venho lá do sertão
Eu venho lá do sertão e posso não lhe agradar

Geraldo Vandré

 

As festas de aniversário ganharam um significado especial diante do contexto que estamos vivendo. Depois de quase dois anos de pandemia, aos poucos, algumas pessoas estão voltando a comemorar essa data com amigos e/ou familiares. Para aqueles que levam a sério as recomendações dos órgãos de saúde, as comemorações ainda são tímidas, com grupos restritos e todos os cuidados necessários para evitar contaminação. Durante esse período, participei de duas comemorações muito especiais, ambas no mês de outubro de 2021. Uma delas foi o aniversário de 60 anos de Elbena Nóbrega, mãe da minha amiga Monalisa Medeiros. Uma tarde muito animada com direito a churrasco, cerveja gelada e música ao vivo. Adorei os forró das antigas. Esse aniversário foi tão especial que coincide com meu primeiro dia de namoro com Lula (resultado de um reencontro casual, após a festa de Elbena, dois anos depois de nos conhecermos; essa história foi contada na crônica “A magia da paixão”, publicada no dia 09 de novembro). 

O outro aniversário foi o de Jefferson Dantas, amigo do curso de Turismo da UERN. Administrador, pedagogo e servidor público, Jefferson é multifacetado, supercompetente e dedicado em tudo que se propõe a fazer. Difícil conhecê-lo e não virar seu fã. Carismático, educado, atencioso e muito divertido, Jefferson é daquelas pessoas que a gente se orgulha de chamar de amigo. Depois de perder alguns parentes e amigos para a Covid-19, ele precisava, mais do que nunca, celebrar a vida e a saúde, partilhando com alguns amigos e familiares a dádiva de estar vivo e de ter conquistado mais um espaço no mercado de trabalho com a convocação do terceiro concurso público na área de educação. Isso só foi possível graças à vacina contra a Covid-19, que começou a ser aplicada no início do ano passado. Em um domingo ensolarado, a festa aconteceu num lugar aberto, arejado e muito agradável, o Sun Days Comedoria, no bairro de Ponta Negra. Uma das proprietárias do espaço, Jaina Elne, que é cantora, fez uma apresentação incrível, com direito a alguns clássicos da MPB, e tornou o momento ainda mais especial. Depois, teve o show de outra cantora. Não me lembro o nome dela, mas sei que cantou bastante sofrência. Curti a festa na companhia de um casal de amigos da UERN, Diego e Liege, e de sua adorável filha, Laura. Foi maravilhosa a nossa tarde. Vai ser ótimo quando pudermos repetir a dose, com outros amigos do grupo (Eryka, Willian, Nelson), de preferência com uma cerveja bem gelada e uns petiscos.

Contei um pouco desses dois aniversários em contexto de pandemia para falar da primeira festa de aniversário de que participei em 2022. Estou falando de uma dupla comemoração que aconteceu no último sábado: o aniversário e o chá de casa nova do meu amigo Saul Oliveira. Esse menino sertanejo que é sinônimo de festa, leveza, alegria. A data inicial seria 08 de janeiro, mas por ter testado positivo para a Covid-19, com sintomas leves, pois estava vacinado com duas doses do imunizante, ele cumpriu o período de isolamento e remarcou a data da festa.

Saul reuniu alguns amigos e familiares para essa comemoração no salão de festas do seu condomínio. O grupo foi restrito para evitar aglomeração. Ele festejou o aniversário e a aquisição do seu apartamento, um sonho realizado com muito esforço e dedicação. Um sonho que ele cultivava desde os tempos de ensino médio, quando andava a pé nas redondezas do condomínio para visitar alguns amigos que moram no bairro do Alecrim e ficava imaginando como seria comprar um imóvel e viver ali. 

E por falar em ensino médio, Saul fez um discurso emocionado, o que aliás já virou uma marca de suas festas de aniversário (em 2020, por exemplo, ele reuniu mais de cem pessoas em sua última festa de aniversário antes da pandemia) e ressaltou a importância do IFRN em sua trajetória. Lembrou de sua origem simples e da luta dos pais para que ele e o irmão Samuel pudessem estudar. Fez questão de dizer que os pais acreditam no poder transformador da educação e agradeceu pelos programas governamentais que permitiram um maior acesso da classe trabalhadora ao ensino superior. Depois de cursar o técnico em turismo no IFRN, Saul teve sua vida transformada e sempre faz questão de dizer isso para lembrar a importância da educação pública e de qualidade. Hoje, servidor público federal, está concluindo a segunda graduação na UFRN. É formado em jornalismo e em breve concluirá o bacharelado em Serviço Social, a realização de mais um grande sonho. Não duvido que sua próxima conquista seja o ingresso como Assistente Social em uma instituição federal de ensino.

Poderia preencher o restante da página com o discurso potente e inspirador de Saul, mas quero falar um pouco desse nosso encontro e daquela tarde agradável que proporcionou aos amigos e familiares, também como forma de agradecer por tudo que vivenciei em sua festa, um evento marcado pela alegria e pela simplicidade de quem sabe o valor de um amigo, de quem sabe valorizar cada uma de suas conquistas e os que estiveram ao seu lado durante sua caminhada. Saul, que é natural de Jucurutu, deixou sua cidade há quinze anos para estudar em Natal e lembra com orgulho o período em que viveu na Casa do Estudante. Antes disso, morou na casa de uma amiga de sua mãe. 

Fã de Belchior e militante do PT. Duas características marcantes desse menino alegre e sonhador que deixou o sertão para ganhar o mundo, mas traz o sertão dentro de si e jamais esquece dos seus e de suas origens. Como disse Oswaldo Lamartine de Farias, “Cada vivente tem o seu sertão. Para uns são as terras além do horizonte e para outros, o quintal perdido da infância”. Para Oswaldo, “O sertão é mais que uma região fisiográfica, [...] tem o seu viver, os seus cheiros, cores e ruídos”. 

Fiel às origens e sempre rememorando seus ancestrais, Saul jamais esquece do avô que foi gari e do poder que tem a educação como instrumento de transformação social. Tal qual o seu ídolo de Sobral, o menino de Jucurutu sempre afirma que amar e mudar as coisas lhe interessa mais. Ele sabe que “o sol não é tão bonito pra quem vem do norte”, mas também sabe que “tudo é divino, tudo é maravilhoso”, como cantou o “rapaz latino-americano sem dinheiro no banco”, jovem que desceu do norte pra cidade grande e que aprendeu com a noite escura a amar mais o seu dia.

Sertão, música, viagens, amigos, laços afetivos, diversidade. Palavras que compõem Saul e fazem dele uma pessoa única. Um menino que veio do interior para tentar a vida na cidade grande, mas nunca perdeu sua essência, sua sensibilidade, sua delicadeza, sua crença no ser humano e, sobretudo, em um mundo melhor, mais justo, com dignidade e respeito, independentemente de credo, orientação sexual, etnia... 

Um cidadão do mundo. Assim poderia definir meu amigo Saul. Um menino que tem pressa de viver. Um sertanejo que ganhou o mundo. Ele já desbravou alguns países da América do Sul com dois amigos-irmãos (Victor Ferreira e Ranniery Sousa) e explorou diversas cidades brasileiras, não só a passeio, mas também como concurseiro, na sua luta para se tornar funcionário público. Saul tem amigos nos quatro cantos do Brasil. São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, João Pessoa, Recife, Fortaleza... Onde quer que esteja, é sempre muito bem acolhido pelos amigos. E onde quer que esteja, está sempre agregando pessoas, fazendo novas amizades e encantando a todos com seu jeito simples e alegre de viver a vida. Uma prova disso foi essa sua última festa, em que tive a alegria de fazer novos amigos, como Luan David e Isaac, e reencontrar amigos queridos como Andriely, Mariete, Arlan, Aline Juliete e outros. 

Para finalizar esta homenagem ao menino de Jucurutu, deixo estes versos de Gonzagão que definem muito bem esse sertanejo que ganhou o mundo: 


Minha vida é andar por este país
Pra ver se um dia descanso feliz
Guardando as recordações
Das terras onde passei
Andando pelos sertões
E dos amigos que lá deixei