Ana Paula Campos

19/01/2022

 

QUEM PRECISA DE TERAPIA?

Após a publicação do meu último texto, na semana passada, várias pessoas deixaram mensagens de apoio nas publicações e no meu privado. Eu sou muito grata por todo esse apoio, mas gostaria que soubessem que estou bem. Então, gostaria de aproveitar este movimento de dororidade para trazer outro tema para nossa reflexão. Afinal, quem precisa de terapia?

Eu não sei se a pergunta está correta, porque pessoas não negras podem, em muitos momentos, apresentar resistência ao processo de terapia, por terem sido ensinadas que profissionais como psicólogas/os e psiquiatras são, como dizem, “médicas/os para doidas/os”. Como nossa sociedade é proativa, admitir que temos limitações que nos tiram, ou nos atrasam a corrida pelo sucesso, não seria muito interessante para esse público. 

A questão é que esta coluna, de modo geral, é destinada a pessoas racializadas e, dessa forma, quando analisamos nossas especificações, podemos concluir que a pergunta correta deveria ser: quem merece a terapia?

Nós, pessoas racializadas, somos ensinadas, desde cedo, que somos pessoas mais fortes e, por consequência, aguantamos mais dor. Esta realidade é facilmente confirmada pelos dados estatísticos, que comprovam que nós, mulheres negras, por exemplo, somos submetidas ao processo de obstetrícia, na maioria das vezes, sem anestesia. 

Aprendemos, desde cedo, que devemos ser fortes, porque nada para nós será fácil. Temos que ser sempre melhores, esforçando-nos o dobro para alcançar o mínimo. Aprendemos a cuidar dos outres, mas deixamos nossas dores sempre em segundo plano, porque tudo é mais urgente. 

Pensamos em terapia e logo vêm diversas justificativas: “é caro demais”; “tenho outras urgências”; “não tenho tempo”; ou simplesmente, “estou bem”. Vamos empurrando nossas dores e traumas para debaixo do tapete, fingindo que ser forte é uma realidade. 

O autocuidado passa a parecer um luxo inalcançável. Parar tudo por algumas horas, esquecer tarefas de maternidade ou domésticas, parece um crime. Repousamos por alguns instantes e já ouvimos várias vozes em nossas cabeças gritando: fraca; preguiçosa; negligente...

Nisso, vamos definhando – todo dia um pouco mais –, permitindo que a maldade de uma sociedade racista, sexista e machista nos destrua, e tudo isso porque nos negamos um pouco de amor. Então, façamos um teste: se eu te pedisse para nomear tudo que você mais ama na vida, quanto tempo levaria para ouvirmos seu próprio nome?

Hoje, existem várias opções de atendimento gratuito ou profissionais, que atendem a partir de valores sociais. Seja como for, priorize ser atendida/o por alguém que estudou as/os nossas/os, como Frantz Fanon, Neuza Santos Souza, bell hooks, entre tantos outres; alguém que tenha estudado literatura LGBT+, para que quando essa/e profissional olhar para você, compreenda que você é fruto do que fizeram de você. Mas isso já é assunto para outra crônica.