Ana Paula Campos

22/12/2021

 

NÃO ENSINEM NOSSAS CRIANÇAS A ACREDITAREM EM PAPAI NOEL 

    Antes de iniciarmos, preciso deixar escuro que esta reflexão é destinada às famílias de pessoas negras e indígenas que, ao contrário de vocês, brancos, mantemos nosso senso crítico o ano todo e não passamos o mês de dezembro dopados com a benevolência natalina. Dito isso, sigamos. 

    O racismo é um plano perfeito. É tão bem orquestrado que tudo que nos rodeia passa despercebido. Não questionamos; ao contrário, naturalizamos tudo que nos é apresentado como verdadeiro e, pior, consideramos como única alternativa. Assim é a festa do Natal. 

    Peço que façamos um exercício: pensemos no mês de dezembro e lembremo-nos do nosso entorno. Luzes em todos os lugares, pinheiros, renas, homens brancos e com barba branca vestidos de Papai Noel, que descem pelas chaminés para nos trazer presentes e enfeites que lembram meias que, costumeiramente, são penduradas nas lareiras de nossas casas. Ops, mas não temos lareiras, nem renas, nem chaminés...

    Eu observo as escolas públicas por esta data. Lugar ocupado, majoritariamente, por pessoas negras e indígenas, mas tudo ao nosso redor não faz o menor sentido. São pinheiros de cartolinas colados nas paredes, que nada mais são do que árvores de lugares predominantemente frios. 

Algumas professoras, com a melhor das intenções, até constroem, com seus alunes, árvores de Natal a partir de um galho seco coberto com algodão, lembrando a neve. Mas quem de nós já viu a neve? As crianças passam horas construindo um elemento natalino, que não fazem ideia de como o é, de fato. Tudo muito distante de nós. Tudo isso sem falar da expectativa em ver Papai Noel. Aquele cara branco que, com sorte, vem acompanhado das suas ajudantes duendes, que são sempre mulheres brancas, jovens e sem deficiência.

 Aliás, parece-me que é nesta época – e só nesta época – que as pessoas brancas são tomadas por um sentimento de generosidade, que as fazem doar presentes e cestas básicas à comunidade. A mesma comunidade que estas pessoas fazem questão de passar longe, escondem a bolsa quando a vê, ou que, na pior das hipóteses, operam para que não deixe as periferias.

Mas voltemos ao espírito natalino, afinal, é Natal. Pois bem, é neste momento do ano que estas pessoas doam presentes para nossas crianças, que recebem acreditando que foi o próprio Papai Noel quem deu. Nenhum grande problema aqui para os brancos, já que o benfeitor continua sendo um deles: homem cis, branco, sem deficiência, casado com a senhora Noel. O problema surge quando familiares negres e indígenas fazem um esforço sobre humano para comprar aquele brinquedo que sua criança deseja há anos e, no final das contas, colocam o crédito na sacola do “bom velhinho branco”.

 Não nos esqueçamos do arquétipo. O mesmo “bom velhinho”/herói civilizador é aquele que tomou nossas terras, saqueou tudo que é nosso, matou nossa gente e estuprou nossas mulheres, agora é celebrado como benevolente. Nas paredes, palavras como “paz”, “união” e “fraternidade” ocupam um espaço privilegiado, mas nossas crianças negras e indígenas seguem sendo negligenciadas o ano todo, ou até mesmo violentadas com narrativas e atitudes eurocêntricas e racistas, que apresentam o colonizador como herói. Uma trama perfeita de dezembro a janeiro. 

Este mês celebram o nascimento de um deus cristão. Um homem branco, loiro e dos olhos azuis. O mesmo que, em nome dele, mataram nossa gente, saquearam nossa cultura, saberes e riquezas, mas que nesta época é festejado como “o salvador”.

Enquanto isso, nossas crianças seguem sem conhecer seus verdadeiros valores civilizatórios e sua verdadeira história. O ano inteiro, comemorações indígenas e negras são negligenciadas e nossos heróis e heroínas esquecidos. 

A celebração da colheita, real motivo de festa para povos que coexistem em paz com a natureza e têm seu sustento garantido por ela, é desvirtuada e apresentada como festas cristãs. Em dezembro, período de Kwanzaa, festa da colheita para os povos negros na diáspora, é apresentada como nascimento de Jesus, e em junho, novamente, a festa da colheita para os povos indígenas, que em Sagi, por exemplo, recebe o nome de “festa do milho”; é-nos apresentada como data da morte e ressurreição de Jesus!

Para o bem da verdade, não me importa o que leva as pessoas brancas a festejarem durante os meses do ano, desde que não se apropriem das nossas já tradicionais comemorações, alterando princípios e valores.

Vamos nós – pessoas negras e indígenas –, buscar não apenas agora em dezembro, mas durante todo o ano, reconectar-nos com nossas raízes e culturas. Vamos apresentar para nossas crianças como festejamos a vida e como isso se reflete em cada atitude do cotidiano do nosso dia a dia. Deixemos escuro que valores como “solidariedade”, “união” e “paz”, já eram praticados por nós anos e anos antes do nascimento do deus deles. Isso é nosso! Que nossas crianças saibam disso para que toda vez que façamos uma delas felizes, elas saibam que foi alguém da comunidade que, ao contrário do que dizem, sabe amar.