Ana Paula Campos

15/12/2021

 

AO LADO DE UM GRANDE HOMEM TEM SEMPRE UMA GRANDE MULHER?

Recentemente me peguei pensando na frase que serviu de título para este texto. Ela já é uma variação da outra que diz “atrás de um grande homem...”. Bom, o fato é que lembrei da frase, da minha mãe e o pensamento foi longe.

Eu tive uma mãe à frente do seu tempo. Falo assim no passado, porque ela virou ancestral quando eu tinha treze anos. Antes de fazer a passagem, era como se ela soubesse que deixaria o plano físico e tratou de me preparar para a vida, o máximo que pôde. Ela dizia que eu tinha que ser independente, ter meu emprego, carro e casa própria, porque se meu casamento não desse certo, eu não ficaria refém de ninguém por dependência financeira. 

Mas observe, casamento era algo compulsório. Nas palavras dela: “você vai ter seu emprego, vai ser independente, mas não esqueça que você também vai ser mãe e esposa, e precisa aprender as coisas do lar”. Na boa, não julgo minha mãe. Ela era uma indígena potiguara, que estudou a vida toda em colégio interno de freiras. Passou a vida ouvindo aquela narrativa de que este era o nosso único destino possível, então, ela jogava com as peças que tinha, mas tentava antever as jogadas e se precaver do xeque-mate.

Minha mãe era uma grande mulher. Economista formada pela UFRN e servidora pública, aprendeu a dirigir em um trator no meio do campo e certa vez dirigiu até a maternidade grávida de umas das filhas, porque meu pai estava de serviço em outra cidade. Minha mãe era uma mulher-búfalo que, ao morrer, virou borboleta e vive entre nós. 

Observe, mesmo ela sendo excepcional e fazendo coisas que a maioria das mulheres do seu tempo não fazia, ela ainda se colocava numa posição de ser obrigada a cuidar do marido. Quando a frase “por trás de um grande homem existe uma brande mulher” veio à minha mente, percebi como o machismo e o patriarcado têm tentáculos quase imperceptíveis. Eles nos colocam em uma posição de importância, mas secundária. Feministas brancas dizem “atrás não, ao lado”, mas mesmo que invertamos a ordem da posição que ocupamos, sempre estaremos no lugar de tutela. 

É isso. Para que o cara alcançasse uma posição de destaque, foi necessário uma mulher tutelando suas ações, orientando, guiando? Esse ditado perigosíssimo, porque, no final das contas, sabemos que essa mulher não é a mãe do sujeito, a professora ou a psicóloga. Somos nós, namoradas e esposas. Indivíduos independentes com carreiras e vidas para conduzir, mas presas sob a obrigação de gerir a vida de nosso cônjuge. No fim, os homens são e serão sempre infantilizados e colocados em uma posição de dependência das suas parceiras. 

Não à toa, mães de meninos sempre criam seus filhos com mais dependência do que as meninas, fazendo por eles coisas que eles podem e devem fazer sozinhos e, quando crescem, jogam esta responsabilidade para suas namoradas e esposas. Mães e filhos querem que sejamos uma segunda mãe. Isso, óbvio, quando conseguem cortar o cordão umbilical e nos deixar fazer parte da vida deles. 

A psicologia branca explica isso como “Síndrome do Peter Pan”. Homens que se recusam a crescer e seguir sob sua própria tutela. Eles não querem uma parceira, querem uma empregada, uma conselheira, uma psicóloga, uma enfermeira, uma puta na cama, tudo, menos dar conta de suas vidas sozinhos. 

É claro que o objetivo do meu texto não é massacrar o sexo masculino, como uma coisa homogênea. Ao falar de masculinidades é necessário cautela, uma vez que são existências múltiplas e diversas. A questão é que se “o grande homem está lá”, é porque existe todo um sistema que o favorece, principalmente se ele for branco, cis, hétero e sem deficiência, e tudo isso sem falar da mulher, que muitas vezes se anula para “apoiar seus sonhos”. 

Minhas palavras aqui são direcionadas às mulheres. Vamos parar de romantizar esta situação e nos contentar com migalhas de “trás” e “lado”. Ao contrário do que muitos homens pensam, feministas negras não estão lutando contra vocês. Estamos lutando pela nossa emancipação. Penso que romper com esse jogo de escolher lados de homens para estar, é compreender que existe um mundo inteiro para nos posicionarmos e isso não necessariamente diz respeito a outra pessoa.