Eliade Pimentel

14/12/2021
 
A vida segue em modo híbrido
 
Estou na calçada aguardando uma carona e encontro uma amiga. O assunto se estende, o carro chega e preciso embarcar. Despeço-me afirmando que continuarei a conversa pelo telefone. E saio rindo dizendo que a vida segue em modo híbrido: quando não dá para ser presencial, a gente engata no virtual mesmo. O fluxo também pode ser ao contrário: de tantos encontros virtuais, alguém grita: ei, a gente não vai se vê nunca? Em tese, já nos vemos sempre pelas telas da vida, então,  a pessoa quer dizer: encontrar-se presencialmente no mesmo lugar físico. 
 
Esse é um assunto longo e já adianto que não devemos desperdiçar a chance de encontros e abraços reais, físicos, materiais. Imagino que não se pode viver de maneira tão solitária, sem ter alguém com quem saborear uma xícara de café ou dividir uma garrafa de vinho. Porém, não é preciso estar interagindo presencialmente o tempo todo para sentir a presença das pessoas.  Podemos ser e estar lá e cá. Nas relações afetivas, peço encarecidamente que não cobrem de seus companheiros ou das suas companheiras cem por cento de presença física, a não ser que seja para os momentos "sórdidos". Aí sim, indispensável (pelo menos, para mim, namoro virtual não cola).    
 
E as relações de trabalho? Há quem ignore, mesmo vivenciando uma pandemia sem precedentes na história mundial, que as tecnologias de comunicação possam manter ou até mesmo elevar o nível das coisas que anteriormente só se resolvia ombro a ombro, cara a cara. Por outro lado, há quem defenda que hoje em dia as aulas sejam em modo híbrido, no entanto, as relações profissionais ainda não estão tão evoluídas. Ao mesmo tempo em que algumas empresa e repartições públicas se adaptam aos novos tempos, ou seja, valorizam as tarefas feitas, as missões cumpridas, em outras situações o fatídico e ultrapassado horário de expediente continua rígido. Presencial, obrigatoriamente. 
 
Não foram poucas as vezes em que saí de casa chateada para cumprir expediente presencial  sabendo que tudo o que eu tinha a fazer era plenamente executável em casa, ou em qualquer outro lugar. Igual a resposta que minha filha deu em uma tarefa na escola, sobre minha profissão e local de trabalho. “Minha mãe é jornalista. Ela trabalha em casa, na padaria, na biblioteca ou em qualquer outro lugar”. Na época, eu atuava apenas como prestadora de serviço, sem emprego fixo, e amei a resposta tão objetiva,  tão direta, tão certeira e tão inteligente da minha pequena. Ela percebeu que meu expediente era real em ambientes diversos.  
 
Uma vez, angustiada com a obrigação de cumprir expediente presencial para cumprir tarefas essencialmente digitais, eu enxerguei a resposta para tamanho disparate em um quadrinho cujo texto continha um tom evidente de sarcasmo, sobre essa lamentável realidade: as tecnologias são de última geração, mas a ideologia é do século antepassado.  Senti-me contemplada. Não dá para esperar que as todas as pessoas façam a relação custo-benefício e enxerguem a viabilidade de sua equipe fazer o  trabalho onde quer que esteja. 
 
A gente sai de casa, pega um trânsito muitas vezes infernal, come mal na rua, tem pouco tempo para descansar, e quando chega no ambiente físico de trabalho continua recebendo todas as demandas pela web. Experimente ir a um escritório ou repartição pública em um momento de pane na internet. Ninguém trabalha. Sim, o que nos move hoje em dia é a rede. Não aquela de deitar, de dormir, de embalar nosso cansaço. A rede que nos move é a rede que interliga os dispositivos e conecta as pessoas, estando elas no mesmo ambiente físico ou noutro canto do mundo. Melhorem, pessoas. Vamos evoluir e viver numa boa com as nem tão novas assim tecnologias da comunicação. 
 
Quando levantei bandeiras clamando por democratização na comunicação, lá atrás, há quase 30 anos, com outros estudantes de comunicação, eu sonhava produzir assim como estou escrevendo hoje. Onde quer que eu esteja. Voilá.