Ana Paula Campos

08/12/2021

 

SOBRE PRÊMIOS, TÍTULOS E VALIDAÇÕES

“E quem se julga a nata, cuidado pra não quaiar.”

Criolo

 

No dia 25 de novembro ocorreu a entrega do prêmio Jabuti de literatura. Dois dias depois, li um post do professor e babalorixá Sidney Nogueira, analisando uma imagem que apresentava os candidates à premiação na sua categoria. Homens e mulheres brancas. A vencedora, uma escritora branca, óbvio. Nos comentários da postagem, uma em especial me chamou a atenção. A seguidora ponderava sobre nossa alegria, quando somos “aceitas/os” nos espaços da branquitude, geralmente de maneira parcial, no que o babá assentiu. 

Fiquei dias pensando sobre isso. Este acontecimento, distante de ser um fato isolado, tem sido comum desde o período colonial, quando alguns negres “dosmeticades” eram levades para trabalhar dentro das casas dos senhores de engenho. Alguns outres ainda assumiam o papel de capitão do mato, perseguindo e punindo suas irmãs e irmãos de cor, acreditando fazer parte da branquitude pelo cargo que ocupava. 

Muitos anos e lutas se passaram, mas a realidade continua a mesma. Os brancos criaram espaços de privilégio para validar e reconhecer o trabalho dos seus iguais, unidos pelo “pacto narcísico da branquitude”, como nos ensinou a intelectual negra Aparecida Bento. Devido às lutas do Movimento Negro por igualdade racial, e numa tentativa frágil de manter uma imagem antirracista, abriram as portas para negres. 

A Academia Brasileira de Letras que, na verdade, não passa de um clubinho burguês, preteriu a candidatura de escritores extremamente bem qualificades e que têm uma contribuição literária gigante para nossa sociedade. Personalidades como Conceição Evaristo e Daniel Munduruku deixam claro que o objetivo nunca foi reconhecer uma obra literária de qualidade. Apenas puxar a sardinha dos seus que, em muitos casos, nem precisam fazer muito esforço para estar ali. Ser branco já é o passaporte do sucesso. 

“Ah, mas Gilberto Gil agora é membro”. Sem querer desmerecer a conquista do irmão, mas sabemos que isso nada mais é do que migalhas lançadas ao vento para aqueles que já convivem entre os brancos. Além de, como já falei, tentar negar a acusação de racismo: “viram? Tem um negro entre nós”. 

O prêmio Jabuti é igualmente burguês e racista. Para poder concorrer é necessário que seja feita uma inscrição com pagamento de uma taxa extremamente fora da realidade do nosso povo preto. Como aconteceu com o professor Sidney Nogueira e a professora e fundadora da Escolinha Maria Felipa, em Salvador, até podemos ficar entre os finalistas, mas o prêmio final é quase certo que fique para os brancos. 

Essa lógica de validar os seus é compreensível, afinal, eles querem que permaneçamos nos lugares de subalternidade onde nos colocaram. Mas e quando a mesma postura parte dos nossos/as?

Uma outra seguidora ponderou sobre a necessidade de nós, pessoas negras, termos nossos espaços de premiação. Seria esta a solução? Tenho observado que pessoas negras que ocupam cargos de poder, decisão e influência no meio político e cultural, têm escolhido as pessoas negras que receberão apoio e reconhecimento. Como afirmou o babá Sidney Nogueira, não se trata aqui de ressentimento, mas de problematização. Por que somos seletivos na hora de apoiar nosso povo? Medo de concorrência? Disputa por visibilidade? 

Seja como for, de uma coisa tenho certeza: quanto mais pesamos a mão no nosso discurso contra o racismo, machismo e a intolerância religiosa, mais seremos empurradess para a margem do esquecimento. A cantora baiana Mariene de Castro disse, certa vez, que não é uma cantora vendável, justamente porque se dedica a gravar pontos de Candomblé, Umbanda e Jurema. A pesquisadora Aza Njeri, apesar de ser PhD, luta diariamente contra o algoritmo das redes sociais para que seu conteúdo tenha engajamento. 

Como se tudo isso não fosse suficiente, percebemos que existe uma hierarquia entre negres de academia e negres que praticam suas pesquisas de forma independente. Quanto maior a titulação, mais respeito têm, e nós, reles pesquisadores autônomos, precisamos nos contentar com seu desprezo. Não é segredo que a academia é um lugar excludente. Não é segredo que diversos pesquisadores não têm seus projetos de pesquisa aceitos, justamente por serem negres que vão na contramão da narrativa colonial daquele espaço. 

Eu mesma passei pela seleção cinco vezes e, apesar da nota excelente nas provas, sou comunicada de que a base de pesquisa “não tem interesse de pesquisar minha temática”. Boto fé que não! O mesmo ocorre com vários outros intelectuais que conheço. Mas o fato de não carregarmos títulos, não significa que não estejamos aprofundando nossos saberes diariamente. 

Em uma das vezes que fui preterida pela pós-graduação da minha cidade, tive uma crise de choro. Na ocasião, um amigo querido, também pesquisador independente, fez-me os seguintes questionamentos: “por que você está chorando? Está chorando porque não vai ter um título? E para quê você precisa do título? Para fazer um bom trabalho pelos seus? E você não já faz, não?” Enxuguei as lágrimas e segui.

Quando lembro da fala desse meu amigo e somo sua voz ao comentário da seguidora de babá Sidney Nogueira, vejo que nossas Entidade sagradas e Orixás já nos ensinam isso há tempos. Quando estão em terra (incorporades), dançam, bebem, fumam, fazem o que têm que ser feito e vão embora. Não esperam atenção, aplauso ou reconhecimento. Apenas fazem o que deve ser feito. Se não damos a devida atenção, somos nos que perdemos. 

Babá Sidney Nogueira é filho do Rei Xangô. Sua obra “Intolerância religiosa” mudou a minha vida e me dá forças para seguir de cabeça erguida, com minhas contas no pescoço, porque sei que não estou só.  Minha mãe Oxum vem em terra coberta de ouro, mas mantem os pés descalços tocando o chão, lembrando que não importa seus títulos ou prêmios; se você não mantiver os pés no chão, sua trajetória não valerá de nada.