Eliade Pimentel

06/12/2021
 
Crônica de um casamento
 
 
Confiança e amor. Duas palavras incrivelmente fortes. E assim, um jovem rapaz resumiu o que sente pela moça com quem decidiu se casar. Afirmou que chegou a hora de casar com a jovem que mexeu com seu coração ainda na adolescência. Esperou pacientemente até ela completar 15 anos e a pediu em namoro aos seus - pasmem - pais! Ele foi além das exigências, que era aguardar a idade permitida para a jovem namorar. 
 
Essa história pode até parecer piegas, porque estamos vivendo dias de relações líquidas, fugazes, rápidas, nada discretas e nem um pouco duradouras.  Mas, do nada me vejo inserida em um grupo de jovens rapazes que são amigos de anos e sinto algo diferente no ar. Torcem para times rivais e mesmo assim mantêm o alto grau de amizade. A maioria tem uma referência feminina ao seu lado e alguns já são pais. Dentre eles, o jovem rapaz casadoiro, que após mais de uma década de namoro, acreditou que chegou a hora de caminhar junto ao seu grande amor. 
 
A cerimônia ocorreu num lugar especialmente escolhido, com vista para a ponte Newton Navarro. O visual espetacular de final de tarde aumentou consideravelmente o grau de romantismo da ocasião. O nível de ansiedade do noivo e dos amigos todos era visível. Cadê a noiva? E ela chegou, parecia uma princesa. E muito sorridente. Uma felicidade tão contagiante que todo mundo sentiu a mesma coisa. O amor está no ar, nas pequenas coisas. A condução do casamento foi por uma juíza de paz ou cerimonialista. Não sei ao certo, porém, ela contou muito bem a história do casal, que se viu a primeira vez num show em Natal.
 
 
Eu escolhi uma roupa já usada noutro casamento, mas o reformei e me senti linda. Personagem de um filme de sessão da tarde. Assim que chegamos, uma amiga quebrou a sandália e fui correndo tentar uma solução junto ao cerimonial. Deu certo. A mala de emergência continha cola, fita adesiva e grampeador. Mais pitoresco para filme de comédia romântica, impossível. Um queria água, outro queria chopp. E todos tiveram que aguardar a cerimônia encerrar para brindar a nova fase do amigo. 
 
A noiva subiu ao palco, cantou música desses forrós da atualidade. A banda tocou de tudo e ao final "revelei" minha faixa etária cantando sem errar a letra das antigas canções de samba reggae e axé music. O amor está no ar! Eu adoro vida social. Abri mão de dois eventos culturais, que estavam acontecendo no mesmo dia, para curtir uma festa de casamento. E olha que não sou eu a amiga do casal, aliás, agora sou por tabela. Sinto muita gratidão por ter participado do dia mais especial da vida deles até agora. 
 
Fiquei pensando nessas festas, essas mais reais, que reúnem poucos e bons amigos, poucas e boas amigas e familiares. Como é o caso da prima que serviu de "babá" para a noiva. Tão linda, toda feliz e satisfeita cuidando do bem-estar da noiva. Ao final, perguntei-lhe seu nome e se havia um grau de parentesco, visto que a noiva é filha única. Ela falou com tanto amor que seus olhos brilharam. O tio do noivo, que é órfão, ficou até o final, demonstrando seu amor e seu apoio, como se fora ele próprio o pai do rapaz. 
 
Amor. Família. Tradição. Porém, acima de tudo isso,  respeito às diversidades. Todo mundo ali demonstrou respeito em tudo e para todos/as. Viva o amor e a confiança para quem é de amor e de confiança! Viva as diferenças (incluindo a diferença de idade que existe entre mim e o rapaz que me levou à festa). Se não tivéssemos apostado na viabilidade de uma relação assim, eu não teria como conhecer o casal e tampouco ser personagem de uma linda história de amor. O amor, como em Coríntios 13, "tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta". E como diz a poeta Civone Medeiros, "mais amor por amor". Amém. Amem uns aos outros. E umas às outras.