Ana Paula Campos

01/12/2021

 

MÊS DA PACIÊNCIA NEGRA: UMA RETROSPECTIVA

 

Todo ano é a mesma coisa. Quando novembro se aproxima, várias pessoas vêm no meu privado questionar se não vou escrever nada sobre isso. O mesmo ocorre quando algum negre está envolvide em polêmica. Então, vou aproveitar o mote para abrir o jogo com vocês de uma vez e fazer uma retrospectiva do mês de novembro.

Antes de mais nada, precisamos entender que negres não são obrigades a se pronunciar sobre cada atitude equivocada de membros da nossa raça. Nós, pessoas negras, não questionamos vocês, brancxs, sobre cada absurdo que o presidente de vocês, branco, faz. Pode parecer absurdo, mas somos seres individuais, com perspectivas e filosofias de mundo diversas e não podemos nem queremos responder sobre o coletivo. Cada indivíduo negre não representa o todo. Dito isso, sigamos. 

Eu acredito que não é novidade para ninguém que novembro é o mês da Consciência Negra. Tanto isso é verdade que, magicamente, nesta época do ano, e apenas nesta época do ano, todo mundo resolve procurar pessoas negras para falar de racismo. Então, se somos lembrades nesta época do ano, por que não somos lembrades durante os outros meses do ano, para falar de outros assuntos? Já é fato conhecido que nós ocupamos os mais diversos cargos e funções na sociedade e estudamos sobre os mais diversos assuntos. Mas por que não somos lembrades em janeiro ou abril, por exemplo, para falar ou de política e ciência ou matemática e literatura?

Foi preciso uma lei determinar a obrigatoriedade do dia 20 de novembro, para que nosso povo fosse lembrado, mas infelizmente as pessoas estão usando a data como pretexto apenas para se passar de antirracistas. Catam um negre na prateleira e determinam o tema. O engraçado é que nunca nos chamam para questionar as estruturas de poder, os privilégios brancos, as atitudes racistas, suas e de seus pares. É só um papinho de uma hora, conduzido de forma rasa ou uma entrevista sem aprofundamento. 

Por falar em entrevistas, é incrível como todas as emissoras lembram de nós em novembro, mas esquecem do mais importante: saber pelo menos o mínimo sobre o entrevistade. E ainda tem jornalista audacioso, que nos pede uma breve narrativa dos nossos passos, pra ele fazer parecer, na hora, que acompanha nosso trabalho. Essas pessoas, de modo geral, não leem nossos textos, não compram nossos livros, nem sequer nos seguem nas redes sociais. Servimos apenas como muletas antirracistas. 

Isso, sem falar da galera que quer, porque quer que você esteja disponível no dia e na hora que elas desejam. Ligam-nos a qualquer hora, abordam-nos de qualquer jeito e ficam chateadas quando explicamos que não temos mais agenda disponível, ou simplesmente não temos desejo de participar de determinadas programações. Sim, sei que para pessoas brancas acostumadas a serem atendidas prontamente, receber um não deve ser mesmo desolador, mas, como eu já disse anteriormente, não estamos à disposição para encenar seu espetáculo. 

Eu, particularmente, escolhi à dedo as lives, palestras, aulas e entrevistas que resolvi participar este mês. Aprendi com o meu mais velho, Antônio Bispo, que antes de aceitar participar de qualquer evento, a gente precisa saber quem está promovendo, para quê está promovendo e o porquê de estar promovendo, ou a gente acaba colaborando para fortalecer a agência do colonizador. 

Eu não quero nem preciso estar nos holofotes. A mídia não dita quem eu sou nem me alimenta. Sou servidora pública, com muito orgulho, e é lá, na sala de aula, que sinto, verdadeiramente, a mágica acontecer. Todos os meus esforços e dedicação são destinados para meus alunes. Cada aula é preparada com muito carinho e responsabilidade; e o trabalho não se limita a um mês específico. Estamos na labuta o ano inteiro, mas sempre que somos notícia nos jornais, é como “vagabundes” e nossas crianças como “coitadas que não têm aula”.

Vocês, brancxs que ocupam os espaços midiáticos, sabem, sabem muito bem quem nós somos e o trabalho que realizamos, sobretudo na rede pública, apesar da falta de incentivo por parte de prefeitos e secretários. E é justamente a certeza de que as coisas estão seguindo seu fluxo e mudança, que vocês querem nos aprisionar em uma data. Não estou dizendo que o mês de novembro não seja importante; é um mês fundamental para intensificar o debate nas escolas e mídias, mas, por favor, não precisamos das suas migalhas para fazer a revolução. Como diria minhas irmãs e irmãos de salvador: SE SAIAM!