Ana Paula Campos

17/11/2021

 

SOBRE A FALÁCIA DA POTÊNCIA DOS BRANCXS

 

Sempre que visito a Gamboa do Jaguaribe, reserva ambiental localizada na Estrada da Redinha em Natal-RN, tenho um costume rotineiro: entro na oca e fico de pé, olhando para o teto da construção. Fico assim por alguns minutos encantada, contemplando a estrutura. O teto da oca me fez perceber que há alguns anos tenho repetido uma grande falácia nas escolas por onde passei. O pior é que acredito que você também.  

Sempre que costumava falar do processo de colonização em sala de aula, dizia que os brancos europeus, quando chegaram em África, Índia e Américas, pensavam estar diante de civilizações inferiores, menos inteligentes e sem cultura. Isso é uma grande mentira. Hoje, recorrendo a obras como as de Cheikh Anta Diop e de George James, é fácil perceber que os bancos sabiam exatamente onde estavam pisando e com quem estavam lidando. 

Ficar de pé dentro da oca e observar os entrelaces, é reconhecer quanto conhecimento de matemática, engenharia e arquitetura foram importantes para erguer a construção que acolhe e protege a todes. O mesmo ocorre com os grandes impérios africanos. As primeiras e maiores universidades do mundo, sistema agrícola, sistema de escrita e de contagem e técnicas de medicina, são apenas alguns dos exemplos que podemos citar para expressar a grandiosidade dos povos indígenas e africanos

O brancx se deparou com culturas diversas e ricas; organizações sociais que promoviam a harmonia e sustentabilidade da comunidade com a natureza e uma religiosidade forte e tudo isso sem falar na beleza de nossa gente. Sim, os brancxs sabiam de tudo isso. Elxs sempre souberam! E foi justamente isso que motivou a cobiça e a ganância. Eles queriam o que não era delxs, o que não eram capazes de produzir sozinhxs. Desde sempre atestaram a sua insignificância e reconheceram que era preciso se apropriar de tudo aquilo para tentarem se igualar a nós e depois defender, entre elxs, que eram superiores.

Brancxs são assim. Seu histórico é de roubo e pilhagem. Seguindo a linha de pensamento própria delxs, imaginaram que povos tão potentes e com capacidade tamanha para produções científicas, poderiam seguir seu modus operandi e passar igualmente atacar e roubar. Nós, negres e indígenas, somos maioria em todo o mundo. Na cabeça da branquitude, unidos e com a nossa inteligência, poderíamos facilmente tomar o pouco que elxs tinham/têm. 

Emicida já elucidou essa condição em um dos versos de uma canção: 

 

“Que o mesmo império canalha

Que não te leva a sério

Interfere pra te levar à lona

Então revide”

 

Fiquei pensado nas escolas sucateadas, periferias, hospitais abandonados, força coercitiva de uma polícia genocida, leis segregacionistas, epistemicídio. É isso que chamamos de racismo estrutural. Uns poucxs brancxs que, cientes da sua mediocridade, investem pesado e constantemente para nos prender neste não-lugar. Lugar de desumanização! Nada do que está posto é por falta de interesse em investimentos. Há investimento. Um investimento contrário. São livros e filmes que moldam nosso imaginário coletivo, nos convencendo de que elxs são o modelo ideal. 

Ah, brancxs, que autoestima de merda vocês têm, né, a ponto de, para se manterem no poder, precisarem se unir em uma fantasia coletiva e ainda passarem a vida inteira nos contando estas “histórias pra boi dormir”, para nos manter adormecidxs? Sim, vocês nos fizeram acreditar que somos seus bois de carga e que só poderíamos andar na sombra de vocês. E no primeiro sinal de despertar de consciência, já saltam ressentidxs de seus lugres falseados. 

Tenho uma péssima notícia para vocês, brancxs: nosso corpo carrega uma memória ancestral. Nossa mente pode até ficar adormecida por um tempo, mas nossas lembranças vêm e com elas têm a força de uma luta milenar. Vocês podem mudar as regras do jogo e até afastar a linha de chegada, toda vez que nos aproximamos, mas o que vocês não podem é dormir hoje, achando que o mundo é de vocês. Seremos o seu pior pesadelo!