Ana Paula Campos

10/11/2021
 RENASCIMENTO 
 
Penso que para quase todo mundo, o dia de finados é uma data muito triste. É um momento de rememorar a partida de nossos ancestrais. Este ano, contrariando esta lógica fúnebre, o dia 2 de novembro será marcado em minhas memórias como um dia de renascimento. 
 
Era uma manhã de novembro como outra qualquer; estávamos eu e meu esposo organizando a casa, quando chegou nosso irmão de axé para nos ajudar com a limpeza do quintal. No mesmo dia, havia marcado de trançar meu cabelo com uma irmã, também de axé. A casa estava uma beleza. Catimbozeiros para todo lado. 
 
Já pelo meio da tarde, Seu Zé Pilintra vem nos visitar. Entre abraços saudosos, entoou um ponto que fez a Mestra Aninha, guia espiritual da minha trancista, vir em terra. Que honra! Já foi chegando e dizendo: “Venha cá! Me dê um abraço. Não gosto muito disso, não, mas sei que vosmecê é chegada nessas coisas”. Sorrimos juntas, abraçadas. Seu Zé observava satisfeito. 
 
E tão rápido como ela chegou, segurou minhas duas mãos com firmeza, olhou nos meus olhos e começou a responder todas as perguntas que fiz em uma noite dessas, aos prantos. O choro correu novamente como água de cachoeira. Aninha dizia o que eu precisava ouvir e suas palavras me fortaleciam como a promessa de uma mãe, quando jura que nada de mal vai acontecer a uma filha amada. 
 
“Vosmecê é cabocla” – dizia ela. “Mas não se aperrei. Vosmecê tem sangue negro aí dentro. É uma mistura”. Fazia apenas alguns dias que eu atinei de pedir ao meu pai a certidão de nascimento da minha avó materna. No registro, narrado por ela mesma, em 1953, mas registrado apenas em 1970, confirmava a minha etnia. Potyguara! Foram noites chorando, perguntando-me o que fazer da minha negritude. Mestra Aninha acabou com a dualidade. “Vosmecê não tem que escolher. É uma juntada linda”.
 
Segurando firme em minhas mãos, levou-me até a frente do meu assentamento. Cumprimentou com respeito minha Cigana Esmeralda e minha Cabocla Jandira e tornou a me encarar, dizendo com voz firme: “Vosmecê tem uma missão muito bonita. Mas não é fácil. Vai ser preciso coragem e força. Vosmecê sabe que é Cambone e Ekedi nas bandas de lá (Candomblé). Vosmecê tem muito o que dizer, então diga! Muita gente precisa lhe ouvir. Não tenha medo, não. Eu sei que vosmecê tem muito medo de errar. Desde pequena. Mas vosmecê já nasceu Ekedi. Está tudo aí dentro. E se errar, não tem problema, não. Vosmecê está fazendo tudo com muito amor. Vosmecê veio pra cuidar de nós e isso é lindo”. 
 
Eu Chorava. Chorava com medo da responsabilidade.  Medo de carregar tantas lutas no meu corpo e falhar com alguma delas. Mas Aninha me fez compreender que não estou só. Aliás, este foi mais um dos seus alentos. Sem casa de axé definida, fazia poucos dias que havia chorado com saudade de colocar os pés no chão de terra e bater paó na cafua das Entidades e nos quartos de santo dos Orixás. 
 
Desta vez, com a voz doce, ela disse, quase colocando-me no colo: “Tenha calma, menina. Tudo tem seu tempo. Já já seu canzuá vai chegar até vosmecê. Até lá, lembre-se que vosmecê nunca esteve só e nunca estará sozinha”. Enxuguei as lágrimas, respirei fundo, renovei a minha fé e afirmei a minha resiliência. 
 
Daí para frente foi uma correria. Eu me desdobrava em mil para atender Seu Exú Caveira, Pombogira do Cemitério, Maria Padrilha, Maria Navalha e até o Mestre de Fábio, Seu Antônio Olímpio, que deu o ar da graça. Eu caminhava para lá e para cá, completamente dessuleada, sem saber muito bem o que fazer, quando percebi o olhar perplexo de Seu Zé Pilintra, que dizia: “Minha nega, que agonia é essa? Está aperriada com nós, imagine quando tiver com a casa cheia de espírito para cuidar”. Eu sorria de nervoso. Mas no fim, deu tudo certo. 
 
Finalizamos a noite, depois de muita cantiga, conselhos e abraços com a palavra final de Maria Padilha: “Isso aqui é o verdadeiro catimbó. Sua casa tem muita paz e entidade gosta disso. Simplicidade, cigarro, cerveja e cantiga” – e completou dando uma espiada no quintal: “Olha Seu Zé, o terreiro aqui é até bom; dá pra gente fazer um catimbó bonito”. E foi assim, nervosa com esta última indireta, mas feliz da vida com tudo que ouvi, que hoje posso dizer com segurança: NASCE UMA NOVA MULHER.
 
Ana Paula Campos, Indígena Potyguara, africana em diáspora, Ekedi de Oxum e aquela que, nas palavras de Padilha, parece os Erês e, segundo Exú Caveira, tem essa mania feia de abraçar.