Ana Paula Campos

03/11/2021
 
O caso de racismo na Unimed e seus desdobramentos 
 
Como boa parte das pessoas que me acompanham sabe, na última quarta-feira, dia 20 de outubro, fui vítima do racismo na unidade de fisioterapia da UNIMED, localizada no bairro Petrópolis, em Natal-RN. 
 
Na semana passada, dei início a narrativa que escureceu a verdade sobre o ocorrido na clínica. Hoje, gostaria de comentar alguns episódios que surgiram em razão da minha denúncia de racismo. 
 
Durante o ato racista na clínica, algumas pessoas estavam presentes, mas ninguém se manifestou. Não sei se por covardia ou indiferença. Seja como for, aprendemos que racismo, homofobia e sexismo são questões identitárias, não um problema social. Dessa forma, ninguém “mete a colher, afinal, não tenho nada a ver com isso”.
 
Ainda na sexta-feira, ao chegar em casa, fiz uma live no Instagram, expondo o ocorrido nos dois dias na unidade. Alguns minutos depois, passei a receber mensagens de solidariedade. Tais manifestações são importantes, mas foram poucas as pessoas que me procuraram no privado para saber como eu e minha filha estávamos nos sentindo e propor uma ajuda efetiva, como procedimentos legais. Algumas destas pessoas se dizem militantes, brancas e negras, mas o “apoio” limita-se às redes sociais.            
Nas escolas, quando uma criança racializada, com deficiência ou LGBT+ sofre violência, dificilmente são acolhidas. Quando muito, a escola procura “chamar a atenção” de quem praticou o crime. A gente segue só com nossas dores e o problema segue sem solução. 
 
Um outro ponto é o fato de algumas pessoas acharem que faço denúncias em redes sociais com fins de alavancar seguidores e likes. Eu fico chocada com a capacidade interpretativa das pessoas. Sério que algumas pessoas acreditam que eu me sinto confortável nestas situações? Primeiro que eu não saio pelas ruas procurando um racista para me atacar. Eu gostaria muito de poder circular em paz e em segurança, mas sabemos que pessoas negras, LGBT+, gordas, com deficiência e de terreiro não passam despercebidas. É preciso muita coragem para frequentar espaços criados só para pessoas brancas, burguesas e cristãs, porque em algum momento um deles vai deixar claro que aquele não é nosso lugar. Não temos um dia de paz!
 
E quando eu pensei que não poderia piorar, uma conhecida, branca, loira e de olhos azuis, enviou-me vários áudios no whatsaap, dizendo que “sente muito pelo que aconteceu, mas...”
 
“Eu também teria medo de você, uma bicha enorme, linda, NEGRA, imponente, vindo na minha direção, eu também teria medo” (detalhe: não fui em direção de ninguém. A branca racista bloqueou minha passagem)
 
“A gente não deve generalizar as coisas. As vezes quando você fala ‘branco racista’, você inclui outras pessoas nisso que não são, como eu”
 
“Você colocou assim: ‘nós negres temos que nos unir pra criar espaços que a gente possa frequentar e que não passe por isso’. Mas depois eu fiquei refletindo. Eu acho que se toda pessoa tivesse a consciência que você tem e soubesse se impor como você faz, talvez isso fosse um melhor ensinamento, porque assim você estaria segregando novamente. E não é isso o legal da história.”
 
“Eu também sofro por causa das minhas condições sociais”
 
“Não, Ana Paula, você não tem que lutar para que as pessoas, negros e ÍNDIOS, ou sei lá, qualquer outra etnia, qualquer raça, pra ter um centro de fisioterapia... Não! Você deve continuar trabalhando sim, e ensinando as pessoas, porque alí é um direito de todos e no momento que você pede pra separar é o que os brancos racistas querem e isso não pode voltar mais” 
 
Perceba, esta pessoa “gosta” de mim, mas isso não a isenta de ser racista. Em suas falas, fica nítido que ela não tem leituras sobre questões raciais e reproduz o que a sociedade branca racista nos ensina pelas novelas, livros didáticos, filmes, revistas, espaços de poder e decisões judiciais. O que ela vem chamar depois de “eu falei o que está no meu íntimo”, na verdade chama-se “senso comum” e não é uma reflexão individual. É constructo social e precisa ser combatido diariamente, porque ser ou não racista não está no campo do desejo consciente – em alguns casos.
 
Mas brancxs, de modo geral, têm tanta noção de como o sistema opera, que ao primeiro sinal de união de pretes, já saem na defensiva de si e dos seus, alegando “segregação”. Contrariando a lógica branca, ainda que pessoas pretas se unam para saber mais, ganhar mais dinheiro ou abrir espaços apenas com profissionais negres, não teríamos poder estrutural de opressão.
 
 Não temos como mudar toda uma estrutura e praticar a falácia que vocês denominam de “racismo reverso”, repetindo que sofrem violência, implorando por uma opressão para chamar de sua. Isso chega a ser ridículo!
 
Não somos como vocês. Não seguimos a lógica do colonizador de matar, roubar e segregar. Nós estamos falando em organização dos grupos acêntricos como possibilidade de coexistência. 
 
Além disso, mais uma vez percebemos que a vítima da violência do racismo é quem deve ser responsabilizada, pela lógica branca. A gente é quem tem que estudar, se impor, educar xs brancxs e, neste meio tempo, ainda tentar se manter viva. 
 
O mais estarrecedor de tudo isso é que mesmo que eu seja considerada uma referência nos estudos raciais, brancxs vão sempre se achar autorizades a vir em nossas redes sociais determinar o que devemos fazer e como devemos fazer, como se precisássemos de tutores para isso e, a bem da verdade, sabemos que o objetivo é manter o status quo.
 
Ouvi todos os áudios e respondi mantendo a mesma lógica deste texto. O que a branca fez? Provavelmente ficou ressentida e não respondeu. Aliás, é o que geralmente fazem os brancxs que me procuram para jogar na minha cara suas certezas. Ao ouvir o contradiscurso, ignoram-me.
 
De nada adianta sair criticando pessoas racistas, se estas mesmas pessoas não estiverem dispostas a ouvir, estudar, repensar, reconhecer seu racismo e mudar. 
 
Observação: o nome da pessoa que me enviou as mensagens não será, de modo algum, revelado e nem as transcrições dos áudios serão usadas para outros fins, para além da análise nesta crônica.