Ana Paula Campos

20/10/2021
 
ANO PASSADO EU MORRI, MAS ESSE ANO EU NÃO MORRO!
 
O despertador tocou. Nem tive tempo de saudar meu orí. Pulei da cama, cambaleando pelo chão, tonta de sono. Dormir um sono tranquilo e por horas seguidas tem sido artigo de luxo. Na trajetória do quarto para o banheiro, tentei me convencer de que dormir demais é coisa de gente preguiçosa. "O povo preto sempre trabalhou pesado, sem cansar". Acho que li isso em algum livro didático, quando criança.  
 
Alternando um gole na xícara de café e uma olhada nas postagens das redes sociais, deparei-me com mais um caso de racismo. Desisti do café.  Eu já estava atrasada mesmo. 
Dia corrido: trânsito, trabalho, racismo, cobrança, sono, mercado, racismo, lembretes, trânsito, almocei? — mensagens, trabalho, filha, marido, louça, roupas na máquina, sono, mensagem no celular, racismo... 
 
Naquele dia, um padre racista havia arrancado esculturas de homens negros, decapitando suas cabeças, deixando-as jogadas ao chão daquele solo profano. Na mensagem, uma negra me acusava de não saber fazer militância. Gritava que VIVO CONFORTÁVEL EM SALAS FECHADAS, CERCADA DE LIVROS, ENQUANTO ELA ESTÁ FAZENDO A MILITÂNCIA REAL. Seus gritos saltavam em letras garrafais e aos poucos foram preenchendo a tela e minha mente. Balbuciei uma explicação ou outra, mas não havia espaço para minhas letras miúdas. O CAPSLOK vinha com peso sobre meus ombros cansados. Segurei a raiva. Segurei o choro. 
 
Finalmente, a noite chegou. A luz de lembrete do celular alertou-me da tarefa de casa da minha filha. Entrei no quarto dela e pedi que fosse estudar. Será que agora rola aquele café? Lembrei de dar um aviso a ela. Foi então que a visão de uma adolescente segurando o tablet me enfureceu. Com o dedo em riste, gritei todas as dores que guardei. “Se você não aproveitar os privilégios que tem, terá que se contentar com um emprego medíocre!”. Ela tentava falar. Não dei chance. Gritei todas as raivas que acumulei naquele dia inteiro. Ela chorava e tentava se aproximar. Naquele momento eu tinha ódio da minha filha. 
 
Sentei na cama, cega pela fúria. Foi quando senti a mão quente do meu marido tocar meu ombro e o pedir baixinho: “fica aqui e se acalma. Deixa-me ir lá ver o que houve. Acho que ela estava estudando...”
 
Morri. 
 
Alguns minutos depois ele retorna com a sentença: "Ana, ela estava estudando. Usou o tablet para fazer uma pesquisa".
 
Matei. 
 
Levantei, como se tivesse um buraco sob meus pés, como se carregasse o peso de uma vida nas costas. De fato, carregava. Fui até lá de cabeça baixa. Eu sentia tanta vergonha de mim e de quem eu fui naquele instante. Sentia que não importasse o que eu dissesse, o mal estava feito. A palavra havia sido proferida e não havia nada que a fizesse voltar para a boca. Gaguejei baixinho: "Vem cá dar um braço na mamãe"
 
Choramos abraçadas por alguns minutos, lavando o ódio do mundo em nós. 
 
"Desculpa sua mãe? Eu estava cansada e chateada com outras coisas e descontei em você".
 
"Eu sei, mainha. Eu vejo como é seu dia. Mas eu estava estudando. A senhora nem me deixou falar".
 
Eu queria gritar. Não com ela. Nossa relação não é assim. Eu queria gritar com o mundo. Com os racistas. Com as "irmãs" negras que falam sem conhecimento de causa. Eu queria dizer para o mundo que eu só queria poder ter uma vida normal. Normal... Dormir, tomar um café da manhã; curtir a família tem sido normal para quem?
 
Senti sua mão segurar a minha com firmeza: “vem, vamos ver um filme juntas”. Seguimos as duas para o quarto, deixando do outro lado da porta: dores, medos, rancores, urgências. Éramos só eu e ela. Enquanto refazia os cachos dos seus cabelos, lembrava que não fazia muito tempo, havia prometido desacelerar por ela. Eu estava me tornando a mãe prática, que resolvia problemas e não deixava faltar nada. Mas faltava. Faltava aquele abraço demorado, aquele papo gostoso antes de dormir, aquelas gargalhadas altas que surgiam quando lembrávamos de certas pessoas. Eu sempre tão envolvida com a militância...
 
Balancei a cabeça e voltei minha atenção para ela novamente. Ela sorria com o filme e comentava como o ator principal era gatinho. 
 
Rimos...
Conversamos...
Nos abraçamos...
Fizemos planos para o fim de semana...
Nos despedimos para dormir.
 
Naquela noite, antes de dormir, fechei os olhos e lembrei de tudo que aconteceu durante o dia. Livrei-me da vergonha e da culpa. Eu tinha responsabilidade sobre aquele ato, mas eu também era uma vítima. Isso eu já tinha aprendido com minhas mais velhas. As pancadas, quando vindas dos brancos, já são esperadas. Mas quando vêm daquelas que julgamos irmãs, é como um punhal afiado certeiro no coração fazendo-o sangrar.
 
 Limpei a vergonha e a culpa, peguei o celular pela última vez naquela noite e bloqueei a tal fulana. De pé, observando minha filha dormir, jurei que nunca mais derramaria nenhuma gota de sangue em quem não me machucou.