Ana Paula Campos

29/09/2021
 
Ubuntu: Eu sou, porque Vânia é
 
 
Todos os dias, quando me levanto, peço forças ao meu orí. A caminhada nunca é fácil. Onde quer que eu chegue, é certeza que vou sentir a dor que o racismo provoca. Neste dia não foi diferente. Apesar das trocas incríveis em sala de aula, voltei para casa com a sensação de nocaute. Como de costume, quando estou nervosa, falo sem parar; assim fiquei por horas desabafando com meu companheiro sobre meus sentimentos, repetindo em voz alta, na tentativa de me convencer das minhas palavras. Apesar de tudo, ainda acredito que educação é o caminho. Nem posso pensar em desistir. 
 
Já passava das nove da noite. Eu estava elétrica demais para conseguir dormir. Ouvi o toque de mensagem no celular. Era Vânia, uma de minhas alunas. Uma menina tímida, que iniciou as aulas presenciais insegura e caladinha. Neste dia a aula tinha sido diferente. Contamos com a presença de dois intelectuais indígenas, Ta'angahara e Guajiru Silva que, além de uma aula incrível sobre questões indígenas, fizeram uma oficina de peteca com meus alunes. Entre uma apresentação de slide e outra, Vânia me confidenciou baixinho: “professora, eu ainda vou ser veterinária”. Respondi de imediato: “umas das melhores!”. Cochichávamos como se fosse um segredo nosso. Aquilo que, de tão precioso, não se compartilha com todo mundo. 
 
Em cada mensagem de áudio que chegava, dava para sentir a euforia na voz de Vânia. Ela repetia o quanto estava feliz e que adorava as aulas, porque aprendia muito. Frequentemente recebo mensagens assim e sempre me sinto grata por cada palavra de carinho que recebo de mães e alunes. Mas acho que a gente vai direcionando a nossa atenção para as dores e esquece de curtir estes pequenos momentos. 
 
E foi assim, em um dia nada fácil, que Vânia compartilhou comigo sua rotina: “agora eu é assim: acordo bem cedinho, ajudo minha avó a fazer as coisas, ajudo minha sobrinha a fazer as coisas, ajudo elas, aí depois eu vou comprar as coisas que precisa, aí depois eu vou tomar banho apressada para ir pro colégio, aí quando eu venho do colégio, passo no outro colégio e vou no supermercado pra pegar umas coisas, aí assim, quando eu volto, eu só faço tomar um banho e ajudar minha mãe a fazer as coisas e depois eu durmo [sic]”.
 
Ouvir sua rotina me quebrou por dentro. Não que eu não saiba da realidade das crianças da escola pública, mas ela falava com tanta maturidade sobre isso! Para ela, era comum ser uma menina sozinha entre mulheres pretas que se uniam em prol da sobrevivência comum. Enquanto eu pensava sobre isso, veio o áudio seguinte: “quando eu for ser veterinária, eu vou falar pra todo mundo que eu consegui ser veterinária, cheguei onde eu vou chegar, né, porque eu não sei onde eu vou chegar, por causa de Ana Paula Campos, que foi a professora que me ensinou [sic]”.
 
Eu quase morri de tanto chorar. De repente, eu tive dimensão da minha responsabilidade em uma sala de aula e de como nosso trabalho muda a vida das pessoas. Vânia não sabe, mas neste dia, se ela queria me dizer o quanto sou importante na vida dela, não se deu conta de como ela é importante na minha vida. Vânia me pegou no colo e me abraçou. Ela me lembrou que sou importante, mesmo que o mundo diga o contrário. Fez-me lembrar que vale a pena cada esforço diário para que tudo saia perfeito durante as aulas. Vânia me ergueu e me colocou no alto. 
 
Mas lá estava eu novamente, fazendo pesquisas na internet sobre faculdades que Vânia pudesse estudar no futuro. Senti um aperto no peito. Imaginei como vai ser dura sua caminhada até lá. Onde ela vai chegar mesmo? Quis chorar novamente. Pensei que se está sendo difícil para mim, que sou “passada da casca do alho”, imagina para ela, uma menina negra da periferia? Novamente, o desânimo tomava conta do meu coração. Afinal, quem sou eu contra as estatísticas? Não seria cruel alimentar os sonhos de uma criança preta neste país?
 
Voltei minha atenção para a atividade que estava montando para o mês de outubro. Eu escolhia uma foto e uma frase de Carolina Maria de Jesus, para fazer um cartaz para expor na minha sala de aula. Enquanto eu relia a frase escolhida, senti como se a própria Carolina falasse comigo: “ah, comigo o mundo vai modificar-se. Não gosto do mundo como ele é”.
 
É, Doutora Carolina, a senhora me fez lembrar que Vânia pode ser quem ela sonha ser. E se não estou feliz como o mundo está, vamos juntas, nós, mulheres negras, mudá-lo!
Anotem o que estou dizendo: surgirão Carolinas na Rede Pública e elas mudarão o mundo!