Bia Crispim

24/09/2021
 
Vergonha ???!!!
 
Esses dias, uma pessoa do meu ciclo de amigas, em meio a uma conversa sobre nossos traumas, medos, desconfortos e outras coisas assim vivenciadas na juventude (não tão distante), me perguntou: “Você já teve vergonha de ser assim?” Na hora eu ri (rio quando fico nervosa ou sou pega de surpresa) e instantaneamente, como se tivesse sido acertada por uma flecha respondi que SIM! Naquele momento, aquela pergunta me fez entrar em uma espécie túnel do tempo de memórias, onde só eu tinha acesso, onde só eu podia ver minha vida.
 
Decepcionei?! Acho que você esperava outra resposta, não é mesmo!? Pois é, eu já tive muita vergonha, medo e culpa de “ser assim”. Até bem pouco tempo eu carregava essa bagagem desconfortável. Até que me dei conta de que, na verdade, quem a tornava tão desconfortável, pesada e vergonhosa eram as pedras todas que me atiravam, eram os olhares todos que me miravam, eram as palavras de mau gosto, de desrespeito e de baixo calão que me atravessavam, eram os preconceitos alheios, eram as frustrações alheias, eram as hipocrisias e as sujeiras todas que a sociedade do “homem de bem” despejavam sobre mim.
 
Preciso dizer que quando percebi isso, quando me empoderei, quando tomei conta do conhecimento sobre mim, quando me auto identifiquei e me auto afirmei é que parei de sentir vergonha, é que me eximi de qualquer culpa de e por ser, é que me livrei das pedras e ressignifiquei minha existência. Descobri que a vergonha, o medo e a culpa eram alheias!
 
Até bem pouco tempo, eu andava quase correndo, tentando ser o mais rápida possível para não ser apontada. (Isso eu descobri fazendo terapia). Andava de cabeça baixa, com medo de encontrar qualquer olhar que eu precisasse enfrentar. Encurvada e andando “a la Papa-léguas” imaginava eu passar despercebida. 
 
Bobinha!!! Como uma travesti de um metro e oitenta, de cabelos longos vermelhos, geralmente carregando um monte de bolsas cheias de livros passa despercebida?! Mas, de alguma forma, mesmo sabendo que havia o externo me observando, me julgando, me condenando, meu mundo interno, meu mundo encurvado, ligeiro e intrínseco, me confortava e me dava suporte para suportar (acho necessário usar essa redundância, ela é enfática e proposital) o mundo.
 
Ainda, por costume, e por achar meu mundo interior muito mais interessante que a mesmice exposta no dia a dia, ando ensimesmada, casmurra, mas já lembro (de vez em quando) de erguer a cabeça e enfrentar os olhares e os comentários de boca torta, as risadinhas, os dedos indicadores em riste, as câmeras de celulares apontadas...
 
Já não ando tão rápido... Caminho e meus caminhos irão se cruzar com aqueles que me detestam, que acreditam que eu sou uma aberração ou que eu nem deveria existir. Não preciso desviar, não preciso mudar de calçada. Não devo, na verdade! Afinal, se é o outro que está incomodado, que se retire, que vaze da minha frente, que abra caminho para eu passar, com meu um metro e oitenta, com meu mundo de livros nas bolsas e na cabeça, com meus cabelos vermelhos e minha existência, tão legítima como a de qualquer outro ser humano.
 
Se há ainda alguém que deseja que eu me envergonhe, vou declinar da sua vontade, pois não posso mais realizá-la. Eu morro de orgulho de ser quem eu sou, travesti, professora, filha, irmã, tia, escritora, colunista, palestrante, amante, namorada, amiga, estudante, pesquisadora, mãe de gatos (amostrada hahahahahahahah!) e feliz!
 
O que posso fazer se ainda há alguém que me culpa por eu ser quem sou? Desejar... Desejar que essas pessoas aprendam a identificar que algumas das culpas que carregam não são delas. Que a sociedade massifica e padroniza pessoas como se fôssemos produção em massa. O que é terrível, porque isso criminaliza, marginaliza nossas individualidades, nossa pluralidade.
 
Desejo também que cada uma delas aprendam a SER, respeitando suas idiossincrasias, sua individualidades. Desejo que se encontrem, se auto afirmem, se auto identifiquem. Desejo que elas se deem o direito de serem, se deem o direito de se respeitarem, se conhecerem e se gostarem. Desejo que se deem o direito de deixar pela estrada toda a bagagem extra (de culpa, vergonha ou medo) que lhes é imposta a carregar. 
 
Hoje, depois de tudo o que vivi, se uma pessoa amiga, em meio a uma conversa me perguntar: “Você tem vergonha de ser assim?” Provavelmente eu vou rir (de orgulho ou de surpresa) e irei responder, imediatamente, de cabeça erguida e com passo firme, que NÃO! Porque já não carrego nem medo, nem culpa, nem vergonha de ter me tornado a pessoa que sou.