Ana Paula Campos

22/09/2021
 
Entre torturadores, livros racistas e black money
 
Acompanhamos recentemente o caso do agressor bolsonarista, Alebran de Freitas Epifânio, que após proferir difamações ao quilombola Luciano Simplício, também o torturou diante de todes em uma rua de Portalegre, cidade do Rio Grande do Norte – estado onde moro, por sinal. Também vimos as pessoas perplexas ao se darem conta da narrativa do livro “ABECÊ da liberdade”, dos autores José Roberto Torero e Marcus Aurélio Pimenta, publicado pela Companhia das Letras.
 
Não pretendo falar destes casos por si sós. Grandes intelectuais já o fizeram em redes sociais e já o fazem há anos. Só não vem acompanhando e refletindo sobre isso quem não quer ver os fatos, refletir sobre eles e pensar mudanças. Estou aqui pra falar diretamente ao povo preto e indígena. Espero, sinceramente, que minhas palavras cheguem até vocês e façam sentido. Convido a todes a um debate franco e honesto.
 
Eu, realmente, não entendi qual a surpresa com o tal livro dos brancos. A surpresa da grande maioria em relação à obra e à editora só prova que não estamos acessando o contra discurso. Não estamos lendo obras escritas por pessoas negras e indígenas. Porque se estivéssemos, já teríamos percebido as diferenças absurdas entre elas. Qualquer pessoa com o mínimo de atenção, ao ler um livro escrito por pessoas brancas, reconhece a tentativa forçosa de romantizar estupros e escravidão. 
 
Fico me perguntando se as mesmas pessoas que estavam revoltadas, criticando a obra racista nas redes sociais, também estão comprando livros de pessoas racializadas. Vou falar por mim, mas me referindo a geral. Quantos livros meus você comprou, divulgou e leu? Quantos textos da minha coluna semanal você lê, compartilha ou usa em suas aulas? É fácil achar um absurdo o que os brancos estão escrevendo, mas pra mudar efetivamente as coisas, é preciso, antes de mais nada, que apoiemos a literatura feita por pessoas negras e indígenas. Ou na sua estante só tem lugar pra clássicos internacionais brancos?
 
Perdi as contas de quantas postagens eu vi, nas redes sociais, de pessoas brancas revoltadas com o caso do bolsonarista que torturou o quilombola. O comerciante, além de branco, é racista. Mas estas mesmas pessoas não estão comprando de nós, empreendedores negres e indígenas. Elas vão seguir comprando e divulgando os produtos da branquitude, porque é assim que o status quo se mantém, e nessa estrutura eles são privilegiades. Na moral, elxs, eu até entendo que façam isso, mas nós? Qual a lógica, enriquecer mais ainda o empresário racista?
 
Quantas empreendedorxs negres e indígenas você conhece? Quantas você divulga, investe, apoia? Ou você é daquele tipinho que quer seguidores, mas não quer seguir a galera pra dar uma de famosinhe? É do tipo que paga uma grana alta por um iphone, mas está negociando o trampo da irmandade?
 
Em todos os lugares que eu vou, sofro racismo. Sempre! Todos os dias! E isso não vai mudar, porque esses espaços não foram pensados pra nós. Não nos querem lá. Forçar nossa presença pra mostrar que temos poder aquisitivo é idiotice. Somos maioria neste país. Se pararmos de comprar de bancxs, elxs quebram! Simples assim.
 
Por outro lado, a irmandade negra e indígena também precisa pensar as formas de cobrar pelos seus produtos. Algumas pessoas pedem um valor exorbitante pela mercadoria, e nós sabemos que nosso povo tá lutando pra se manter vivo e pela refeição de cada dia. Essa é a prioridade. Se você fecha seu valor e não faz um diferencial pra pessoas racializadas, você está vendendo pra brancxs. Nosso povo nunca terá acesso. 
 
Mas você pode estar se perguntando: afinal, qual a relação entre o livro racista, o agressor bolsonarista e blackmoney? Tem tudo a ver! Estou falando de Marcus Garvey. O intelectual negro que projetou um futuro pra nós e fez acontecer. Ele criou o primeiro jornal negro de circulação mundial e conseguiu a marca de seis milhões de seguidores, sem apoio da internet! Ele sabia que o conhecimento é o caminho pra revolução. Sabia que ler conteúdos produzidos pelo nosso povo é a única maneira de libertar nossas mentes.
Garvey não era ingênuo e sabia que, além do conhecimento, é o dinheiro que move o mundo. Sendo assim, ele criou a primeira fábrica de bonecas negras e sua própria frota marítima. Fundou a Associação Universal para o Progresso Negro e Liga das Comunidades Africanas (UNIA) porque, segundo Marcus Garvey, uma vez sequestrades de África, perdemos a capacidade de sermos felizes de forma plena na diáspora, porque tudo nela foi pensado pra nos anular e nos extorquir. “De pé, raça poderosa”, esse era seu lema. 
 
Parem de esperar que os brancxs recobrem a lucidez. Elxs estão lúcides. Sabem bem como o mundo opera e não desejam que mude. Comece a sua revolução; a minha, eu tenho realizado em sala de aula! Todos os dias – dia após dia –, lembro às nossas crianças pretas da periferia de onde elas vieram, quem elas são e ao que têm direito. Como diria babá Rodney William, “a revolução está em curso, e não daremos nenhum passo atrás”.