Ana Paula Campos

08/09/2021
 
Chegou setembro... E com ele, o dia da independência 
 
“Todo indígena é canibal. Eu sei isso porque foi minha professora que contou”. Essa foi a fala de um dos meus alunos da Rede Pública, e infelizmente não é um caso isolado. Várias educadoras, ou pessoas que atendem crianças em centros de reabilitação, estão reproduzindo narrativas semelhantes. O problema se agrava em datas específicas do ano, porque algumas pessoas insistem em contemplar as datas comemorativas ocidentais. 13 de maio, 19 de abril e 7 de setembro são um prato cheio... um prato cheio de equívocos. 
Antes de seguir com este texto, preciso dizer que as linhas que se seguem não são, de forma alguma, uma crítica ou um julgamento. Peço que mantenha o ego fora da nossa conversa e o coração aberto para esta reflexão, caso você se reconheça nas ações apresentadas. Isso é necessário, uma vez que compreendemos que somos um constructo social. Nada do que pensamos ou fazemos é fruto das nossas intenções individuais ou biológicas. Nada é natural.
 
É fundamental que nós reconheçamos que nossa formação advém do que vemos e ouvimos nas igrejas, nas escolas, nas artes e – mais tarde –, nas universidades, assim como é importante reconhecer que quem comanda os meios de produção em massa é o grupo hegemônico: homens cis, brancos, cristãos e sem deficiência. Tudo que nos cerca está impregnado desta visão. E mais que isso; na perspectiva ocidental, para que uma narrativa seja validada, é preciso que a outra seja desacreditada. Nessa lógica, enquanto o colonizador branco é o iluminado desbravador, corajoso, inteligente, produtor da arte e mensageiro da vontade do deus cristão, negres e indígenas não passam de indivíduos selvagens, perigosos e sem a menor aptidão para as artes e produção de conhecimento. 
 
Acessamos com mais facilidade esta visão eurocêntrica e preconceituosa. Em vez de pesquisarmos o contradiscurso e repensarmos o que sabemos, fechamo-nos em nossa arrogância e seguimos confiantes, acreditando que sabemos muito e, inclusive, mais que as outras pessoas. O resultado disso é existirem profissionais falando que “a população brasileira é dividida em mameluco, cafuzo e mulato”, ou enaltecendo as pinturas do pintor elitista francês Debret, dizendo que “a arte no Brasil é fundamentalmente europeia”. A informação que chega às nossas crianças é a de que os negres foram “escravos”, assim, nesta condição perpétua; não se fala em nada que tenha acontecido antes da colonização. Aliás, não se fala em colonização. Fala-se em “conquista” e “independência do Brasil”, sugerindo como entretenimento, inclusive, a atual novela da Globo – que não passa de mais do mesmo. 
 
Estou segura de que estes profissionais não estão se dando ao trabalho de pesquisar outras fontes, que não as hegemônicas apresentadas a elas/eles nas escolas e bancos universitários. O problema nisso tudo é que ao conduzir suas aulas ou terapias desta maneira, estão violentando a psique de nossas crianças e reforçando uma estrutura de poder que segue oprimindo e matando nosso povo. 
 
Estamos em 2021 e desde que os povos indígenas foram atacados e escravizados; desde que o povo negro foi sequestrado para o Brasil e também escravizado, que existe luta. Uma luta física e epistêmica. Uma disputa de narrativas, que segue até os dias de hoje. Não acessar estas informações significa compactuar com as práticas brutais do colonizador e tornar-se cumplice da barbárie.
 
Enquanto a “independência do Brasil” segue sendo pauta, nossas mentes seguem aprisionadas e operando em favor de quem está no topo da pirâmide e, sinto informá-la/o, esta/e não é você.