Ana Paula Campos

01/09/2021
 
Quanto de gordofobia tem na sua aula?
 
Pensar em livros didáticos é pensar em ferramentas ideológicas de opressão. Eles estão à serviço de uma minoria no nosso país, que elegeu alguns fatores como sendo padrões e que, por sua vez, são ensinados nas instituições de poder como igrejas e escolas. Folheando o livro de Ciências da minha turma da Rede Pública, fiquei pensando em como seus capítulos fomentam a ideia de gordofobia, para depois a escola, com a melhor das intenções, promover debates sobre bullying. É no mínimo irônico.  
 
Quando o assunto é alimentação, não faltam imagens de crianças loiras e magras sentadas à mesa em família – a tradicional família brasileira; outra não serve! –, comendo frutas e legumes. Ou até aquele conhecido jargão que diz que “você é o que você come”, seguido da imagem de outra criança branca, mas desta vez, gorda. Geralmente, aparecem imagens, umas ao lado da outra, tendo o corpo da criança gorda a forma de um sanduiche e seu semblante triste, e a criança magra tendo o corpo preenchido com legumes e frutas, enquanto sorri. Isso é bastante equivocado e imensamente violento!
 
O corpo gordo não pode estar associado a alimentos que não são saudáveis, porque magreza não é sinônimo de saúde. Uma pessoa gorda pode evitar alimentos calóricos, mas, por uma questão hormonal ou genética, estar acima do peso tido como ideal. Da mesma forma, uma pessoa magra pode ter problemas sérios de saúde como pressão e colesterol altos. 
 
Outro fator complicador é o aspecto triste da criança gorda, reforçando, por meio da imagem, que não se pode ser feliz nesta condição. Estas ilustrações seguem acompanhadas de falas preconceituosas por parte de educadoras, que reforçam um sentimento de exclusão, afastando estas crianças da “normalidade”. 
 
Na minha sala, tem um aluno que, além de gordo, é mais alto do que as outras crianças. Ele tem uma aparência tímida, o que me fazia pensar se ele realmente era introspectivo ou foi obrigado a se silenciar para não se expor, fugindo das piadas inconvenientes. Quando entramos no assunto, falei com naturalidade que sou uma mulher completamente fora dos padrões que a sociedade elegeu como corretos. Sou negra, gorda, cabelo curto e macumbeira. Expliquei que mesmo estando acima do peso indicado para mim, tenho as taxas todas em ordem. Enquanto eu falava, observava seus olhos arregalados para mim, observando atentamente a tudo que eu dizia. Não demorou muito para ele desatar a falar, com uma expressão de confiança que se distanciava da anterior. 
 
É obvio que falamos na importância de uma alimentação rica em fibra e vitaminas, mas sem atacar a forma física de ninguém. Os livros não estão preocupados com a saúde da população, sobretudo da população pobre. Neles não existem debates sobre por que alimentos saudáveis são tão caros. Não estamos debatendo nutricídio em nossas escolas. 
 Igualmente, não estamos pensando sobre o uso de agrotóxico e fertilizantes por parte de grandes fazendeiros, nem da destruição dos mangues em favor da carcinicultura. Esquecemos de discutir o desmatamento das florestas em prol da pecuária. Aliás, ao falarmos sobre o consumo de água no planeta, nos é ensinado a não demorar no banho, mas não se aborda a quantidade de água que é necessária para fornecer a carne que chega a nossa mesa. Assuntos como agricultura familiar ou de subsistência são ignorados.
Temos tantas questões mais urgentes e necessárias para debater, porém, estamos preocupados com a estética das nossas crianças. Sim, porque a questão central nunca foi a saúde. Não à toa a ideia de passeio da classe média desse país é um lanche no Mc Donalds ou similares. Nestas horas não existem críticas. 
 
Nós, enquanto educadoras, precisamos estar conscientes destas questões e buscar informações para além do livro didático. Não importa se você atua na Educação Infantil ou no Ensino médio. Quanto antes iniciarmos estas reflexões, mais chances teremos de almejar uma sociedade menos gordofóbica e preconceituosa.