Ana Paula Campos

25/08/2021
 
Sororidade: Como anda seu senso de irmandade?
 
 
Em 2019 eu e minha filha fomos informadas da necessidade de ela fazer uma cirurgia. Saindo da clínica de Uber, fui interpelada pelo motorista, que sentenciou que tudo isso que estava acontecendo com ela se dava porque não sou cristã. Até hoje ainda não consigo entender por que um deus aleijaria uma criança de 10 anos apenas porque ela se nega a servir aos seus caprichos. 
 
Estamos em 2021 e novamente minha filha, agora aos 12 anos, precisará se submeter a outra cirurgia. Mas desta vez vou direcionar minhas críticas aos humanos, mais especificamente, às mulheres. Estas que estão diariamente nas redes sociais enchendo a boca para falar de sororidade – a tão sonhada união entre irmãs. São textos e postagens belíssimos, comoventes, mas e na prática, como será que tudo isso se aplica?
 
Desde que soube da notícia, iniciei uma maratona para resolver todos os trâmites burocráticos e pendências, evitando ter que sair com ela de cadeira de rodas pela cidade, uma vez que não temos uma estrutura de acessibilidade para cadeirantes. E por falar em pessoas com deficiência, como tem sido sua militância contra o capacitismo? Mulheres com deficiência estão dentro das pautas pelas quais você luta, ou você está muito envolvida apenas com suas questões? E nos pequenos detalhes do dia a dia, como não mandar áudio em whatsapp ou usar interprete de libras em lives no youtube em respeito às manas surdas?
 
Mas seguindo, aproveitei meu desejo de me afastar das redes sociais o máximo possível e comentei com algumas pessoas sobre o caso. Dentre todas com quem falei, pouquíssimas foram as que perguntaram como eu estou e, sobretudo, como minha filha está se sentindo neste processo. Ou a situação seguia com um silêncio ensurdecedor, ou minha fala era interrompida para tratar de questões de trabalho, solicitação de lives ou venda de produtos. Ah, o capitalismo! Não podemos parar para nos solidarizar com nossas irmãs porque nossa vida não dá trégua! Estão todas tão preocupadas em produzir conteúdo, render na produção E vender seus produtos, que os sentimentos de uma “irmã” é pauta ínfima neste momento. 
 
O discurso de sororidade é lindo no papel, mas na vida real as coisas são muito diferentes. São “intelectuais” que ou dialogam entre si em salas fechadas com ar condicionado, ou pelas redes sociais. O discurso não chega na periferia e as irmãs da quebrada tampouco são consideradas intelectuais ou irmãs que podem e devem contribuir com suas reflexões e pautas.  
 
Eu sempre ressalto que não considero todas as mulheres brancas como irmãs. Nem todas estão realmente interessadas na discussão racial. A maioria só quer mesmo se passar de antirracista. É fácil demais sair por aí dizendo que lê Conceição Evaristo. Quero ver incentivar o trampo da preta da periferia, que está lutando para escrever e publicar seu primeiro livro, enquanto faz a ginga para chegar até o final do mês com verba para as refeições. Eu gostaria mesmo era de ver essa mulherada abrindo a carteira – e não vale se for em público! 
 
Infelizmente, existe um clima de competição entre as mulheres que é lamentável, mortal e independe de raça. As “irmãs” estão fechadas em bolhas de iguais. São poucas as exceções que se apoiam de fato; aquelas que cuidam, ouvem, ajudam e vibram com o sucesso das outras. Quando paro e observo o arquétipo, são mulheres inseguras, porque quem é dona do brilho, não tem medo de dividir o palco. 
 
Até posso ver a quantidade de “solidariedade” que vai surgir com esse texto. Sendo bem sincera, poupe-me! Tenho 41 anos e de onde estou consigo filtrar exatamente quem se importa e quem só quer “me manter como aliada”. 
 
À propósito, eu e Giovana estamos bem, obrigada!