Valério Mesquita

23/08/2021
 
 
DAS DEDUÇÕES PRETERDOLOSAS
 
 
Quando penso – Sou. Tenho receio de que alguém após o ponto diga idiota. São as chamadas observações à margem. O leitor, como já disse um fronteiriço - é um monstro na minha literatura.
 
Nessa vida sou pacífico, no entanto, é o mais perigoso dos oceanos.
 
No ruído reside toda a filosofia do mundo. Bem aventurados os ruidosos deste mundo porque deles é o reino do caos.
 
Realizo em minha vida uma viagem de circunavegação. Cada mulher é um Porto Seguro. Minha plataforma não é continental, é mundana. A vida é para mim, um caso liquidado. Se ela não existisse não seria necessário inventá-la.
 
Vivo debruçado na vigésima quinta hora do tempo. Não sou pretensioso. Sou preterintencional. Jamais acreditei na grandeza dos antílopes feridos. São demasiadamente falsos. Entre agir e ser imbecil neste mundo, prefiro a regra três. Para o mundo tenho o silêncio. O pensamento é o único bem digno de inveja. Sua grandeza está no silêncio. Eis as duas colunas do tempo.
 
Não sei quem falou em ablução na água benta da aurora, mas foi um poeta. Todo o poeta traz a fronte iluminada e o pescoço na medida da guilhotina. A guilhotina dos homens é para eles a água benta da aurora. Existem, ainda, outras formas de viver: jardim, céu, estrela, mar, horizonte e, frequentemente cantar a fome. Mas, isto, direis, é sociologia. A sociologia é o folclore da miséria. O resto é foquilore.
 
Tenho especial carinho pelo homem sem liberdade. A liberdade não é um produto do nosso tempo. É um estado de espírito. Bem aventurado os que têm fome e sede de liberdade porque eles serão fartos.
 
Se quiseres me encontrar, estou debaixo do teus pés. Cresço nas ervas de Whitman. Sou e serei sempre protegido pelos fantasmas das tardes enubladas.
 
Lá estão as nuvens. Os homens não as vêem. Elas em silêncio conduzem pensamentos. Mais tarde verterão a água benta da aurora. É bom banhar-se.