Wellington Duarte

10/07/2021
 
 
Estarão os militares preparando o Dezoito Brumário do mandrião?
 
 
Um presidente da república que trabalha menos de 3 horas por dia; que passa o dia xingando ministros, senadores, jornalistas e quem ele acha que merece ser xingado; que trata as forças armadas e policiais, como suas milícias particulares; que parece ter comandado a “gangue das vacinas”; além de empurrar o país para um “martírio econômico”, deve ser chamado de que?
 
Fico imaginando que se Lula tivesse, algum dia, chamado um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) de “feio”, ou se Dilma Rousseff dissesse que os membros da CPI, que a depôs, eram “pilantras”, o que teria acontecido. Essas necessárias lembranças são apenas para lembrar o quanto este elemento deformou as instituições, embora não se deva creditar apenas a ele essa deformação, pois foi fruto, antes de mais nada, de um complexo esquema de construção de um golpe de Estado para impedir a continuidade de um projeto de governo, com face social, e a introdução/retorno do país ao seu “curso natural”, a apropriação do público pelo privado.
 
Bolsonaro está cada vez mais ensandecido e, de fato, neste momento, se encontra sofrendo pressão dos fatos, que mostram claramente a índole criminosa do governo e sua continuidade ainda se sustenta numa coalizão que reúne as figuras mais putrefatas da república, os recalcado e ressentidos sociais, os vendilhões do Centrão e o apoio das forças armadas, que resolveram assustar os senadores com uma nota que já entrou para a história como uma das mais vergonhosas da nossa história republicana.
 
A alta cúpula militar, ao socorrer o Mandrião e ameaçar a República, retoma sua face golpista, que esteve colocada no cercadinho da democracia desde 1988 e é bom lembrar o quanto foi difícil para o governo Sarney, mantido sob constante pressão das forças armadas. Não é de hoje que os militares se sentem “donos” da “pátria”, talvez porque se mantenham como “construtores da nação”, uma visão que começou a ser desenhada depois da Guerra do Paraguai e que parece ter sido colocada dentro dos manuais militares.
 
Os comandantes militares correram para as redes sociais, diante da avalanche de críticas, para justificar a ação deles, e resolveram endurecer suas posições, ou seja, as forças armadas voltaram para o campo da luta política, mas tem um pequeno detalhe: eles têm tanques, navios e armas. Aliás, o comandante da Aeronáutica resolveu dar uma de engraçadinho e dizer que “homem armado não ameaça”, embora ao bater no peito e urrar, os gorilas são ameaçadores.
 
O que o alto comando militar tenta passar para a sociedade, que graças ao seu “comandante supremo” avança para QUINHENTAS E TRINTA MIL MORTE, é que os militares são um “corpo coeso”, imune à corrupção, o que é uma piada grotesca, pois, não é de hoje, que militares, quando estão no poder, costumam meter a mão no erário público e os exemplos históricos são vastos. Se o alto comando acredita que o bufão Pazuello não tem nenhuma responsabilidade nessa tragédia sanitária, então podemos concluir que a instituição se degradou nos últimos tempos.
 
A nota dos militares é uma saudação ao passado. É o saudosismo permanente que persiste, pois a democracia nunca foi muito abraçada por nossas forças armadas e discursos saudando a democracia e o “respeito à Constituição”, sempre tiveram como contrapartida as abomináveis ordens do dia, feitas sempre no 31 de março, que evocavam o Golpe como um movimento, e que só Dilma Rousseff teve a coragem de acabar com essa saudação que agredia e agride a democracia.
 
É claro que a nota não foi feita apenas por causa do desacato, que não houve, do senador Omar Aziz, e revela o apoio inconteste da alta cúpula militar ao Mandrião, um sujeito desqualificado, que ontem mesmo chamou, em alto e bom som, o presidente do TSE, o ministro Barroso, de “imbecil” e “idiota” e voltou a alimentar a caterva que o segue, na mesma linha de Trump, que não vai aceitar os resultados das urnas em 2022 e vai inventar de tudo para que essa horda o siga no delírio da instalação do poder miliciano de uma vez por todas, livre dos “grilhões” da democracia.
 
Os comandantes das forças armadas escolheram ficar ao lado do genocida; resolveram endossar os crimes diários do Mandrião; e optaram por ficar contra a democracia. Se estivéssemos nos anos 60 a soldadesca já estaria colocando combustível nos tanques e limpando seus fuzis para cercarem o parlamento, mas estamos em 2021 e o cenário mundial é outro.
 
O que fica claro é que se estabeleceu uma relação promíscua entre os milicianos e as forças armadas, e a nota faz parecer um atestado de culpa. Mas não se peça vergonha a quem até pouco tempo atrás produzia cloroquina para empurrar nos brasileiros.