Ana Paula Campos

23/06/2021
 
Sócrates e as filosofias africanas 
 
Acredito que o título da minha crônica desta semana tenha provocado, no mínimo, curiosidade em você, fazendo com que queira saber qual a relação entre o filósofo grego e as filosofias africanas. Por falar nisso, você sabia que existem filosofias africanas?  Quando falamos “Filosofia”, tenho quase certeza de que a primeira imagem que surge na sua cabeça são os filósofos gregos, ou quem sabe a figura de homens brancos de terceira idade. Alguém com mais leitura pode até pensar em mulheres, mas provavelmente elas são brancas. 
 
Historicamente, aprendemos a associar a busca pelo conhecimento e o saber científico como intrinsecamente ligados ao Ocidente. Pensar Filosofia, portanto, seria acreditar que existe um conhecimento único e considerado universal, produzido por um público muito específico: homens cis, brancos e de meia-idade. É essa falácia que nos ensinam nas escolas e, mais tarde, nas universidades.
 
Que a África é o berço da humanidade, acredito que todes já sabem (se não sabe, volta e lê minhas crônicas anteriores), mas além de ser o local do surgimento do primeiro ser humano, é também o palco do nascimento das primeiras civilizações e organizações sociais e, com isso, da Filosofia. Ora, as primeiras bibliotecas do mundo surgiram no continente africano e os gregos, tão venerados pela busca do conhecimento, foram “beber” de fontes africanas. Sócrates, ao voltar de Alexandria, defendia que a verdade se encontra dentro de cada pessoa, mas a maioria delas esqueceu dessa verdade e precisa recordar-se dela. Esse discurso, na verdade, é uma releitura da filosofia Sankofa, muito anterior aos gregos, que diz: “nunca é tarde para voltar ao passado e recuperar o que você esqueceu”. 
 
Como Sócrates não deixou nada documentado e “suas ideias” foram registradas por Platão; e não se sabe quantas alterações o discurso dele sofreu no decorrer dos anos; nunca saberemos se ele deu os devidos créditos ao povo africano. O que sabemos é que tentando romper com a lógica sofista, o filósofo grego ao menos admite outras formas de saberes e reconhece que todes carregam o conhecimento dentro de si. Independentemente de serem crianças ou adultos, nobres ou escravizados (sim, os gregos escravizavam), esse conhecimento precisa ser “parido” (maiêutica).
 
Aliás, isso também me faz lembrar da filosofia africana Bacongo, anterior à grega, a qual nos informa que todo ser humano nasce com um sol interno aceso, e que é responsabilidade de toda aldeia acender esse sol. Se o próprio filósofo foi condenado à morte por defender um discurso contrário aos seus concidadãos, como podemos esperar que a branquitude respeite nossos conhecimentos milenares?
 
A filosofia europeia se lê universal e por esta razão não precisa ser adjetivada. Não recebe sobrenome. Existem inúmeras filosofias pelo mundo, todavia, toda vez que nos referimos a uma filosofia que não essa hegemônica, precisamos especificar como “filosofia africana, indiana, budista, indígena”; e ainda corremos o risco de cair na armadilha de generalizar, ou seja, o continente africano é imenso, diverso, contudo, juntamos tudo em um pacote só e dizemos “filosofia africana”. O mesmo ocorre com as filosofias indígenas. Somos de diferentes etnias, mas seremos reduzidos a “índios” e, como tal, com uma filosofia que representaria todas as comunidades. 
 
Esse epistemicídio nos mata intelectual e culturalmente. Nós tivemos não apenas nosso legado roubado, como também fomos destituídos de sermos vistos como seres capazes de produzir conhecimento: não penso, logo não existo. Estudar filosofia deveria ser matéria obrigatória, não apenas entre alunos do curso, mas por todes, afinal, as filosofias (assim, no plural) nos ajudam a pensar a nós mesmos, e aos nossos pares, de forma mais pluriversal.